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A era do totalitarismo: holocausto e barbárie
O conceito que o nacional-socialismo alemão tinha da Europa, e do mundo em geral, diferia substancialmente da realidade política e social ao fim da década de 1930. Por isso, o novo poder tentou reordenar o continente começando pelo próprio solo alemão. Era preciso conseguir um "espaço vital", acabar com o "problema judeu", reconduzir as minorias étnicas e reinstalar os eslavos. Todas essas "tarefas" exigiam medidas drásticas que resultaram em campos de concentração, deportações em massa e extermínio.
A perseguição aos judeus
As razões que levaram o regime hitlerista à perseguição e destruição dos judeus foram várias. Em primeiro lugar, o componente racista que caracterizava o nazismo, que o levava a afirmar a superioridade indiscutível da raça ariana ante as demais, identifica os judeus – em coalizão com as forças marxistas – como os principais culpados da derrota alemã de 1918. Também existem outras razões, como o desejo de rapina por parte da burguesia alemã sobre negócios controlados por judeus, assim como o ressentimento ancestral que em grande parte da Europa existia contra esse povo por motivos religiosos e de diferenças culturais.
Leis e ações antijudaicas
Em 1° de abril de 1933, dois meses depois de Hitler ser nomeado chanceler, foi decretado o "dia do boicote" contra comerciantes, professores, estudantes, intelectuais e médicos judeus pelas novas autoridades alemãs. Uma semana depois, foram aprovadas leis discriminatórias que os proibiam de exercer a medicina, a advocacia e ocupar cargos públicos. A legislação discriminatória se consolidou em 15 de novembro de 1935 com as "leis de Nuremberg", que afetavam todos aqueles que tivessem 25% de sangue judeu e estipulavam a privação de cidadania e a proibição de matrimônio com arianos mediante a "lei para a proteção do sangue e da honra alemães".
A perseguição deu um passo importante com a criação do "serviço da solução final da questão judaica" (1936), que gerou um êxodo espontâneo em massa. Depois decretou-se uma segunda bateria de leis discriminatórias: registro obrigatório das associações judaicas, das fortunas superiores a cinco mil marcos e dos negócios pertencentes a judeus.
Foram anulados os diplomas de advocacia ou medicina em mãos de judeus. Os passaportes deviam ser marcados com a letra J.
Em 6 de novembro de 1938, o conselheiro da embaixada alemã em Paris, Ernest von Rath, sofreu um atentado. Seu autor, Herschel Grünspan, era filho de um judeu deportado. Três dias depois, no vigésimo aniversário do fim da primeira guerra mundial, as SS organizaram uma série de ataques na Noite dos Vidros Quebrados (Kristallnacht), que teve um saldo de quarenta assassinatos, trezentas sinagogas destruídas e 25.000 detenções. Como complemento, foram editadas novas regras de marginalização. A comunidade judaica devia pagar um milhão de marcos de indenização e devolver as compensações recebidas das companhias de seguro.
Uma vez começada a guerra, na Polônia, foram exterminados mais de 85% dos judeus, conduzidos a campos de concentração ou fuzilados. Na França, na Bélgica, nos Países Baixos e em Luxemburgo adotou-se uma política similar à do território alemão: exclusão econômica e campos de concentração.
No verão de 1941, Hitler encarregou o chefe das SS, Reinhard Heydrich, do esboço de um plano para aplicar a "solução final à questão judaica" por meio da aniquilação.
Em 20 de janeiro de 1942, a Conferência Interministerial de Gross Wannsee, celebrada nas proximidades de Berlim, ditou as medidas concretas do plano de extermínio: trabalhos forçados, falta de alimentação, separação de sexos e "tratamento adequado dos sobreviventes".
Nos campos de concentração e extermínio (Auschwitz, Chelmno, Belzec, Sobibor e Treblinka, Dachau, Buchenwald etc.), construídos na Alemanha, Áustria, Tchecoslováquia e Polônia, morreram de quatro a seis milhões de pessoas.
A vida no campo de concentração
Alguns dos sobreviventes dos campos de concentração dedicaram sua vida, ou parte dela, a testemunhar o que viram e o que padeceram no Lager (Konzentrationlager). O turinês Primo Levi (1919-1987) permaneceu em Auschwitz-Birkenau entre 1943 e 1945 e suas recordações desses anos estão registradas em Se isso é um homem (1958), A trégua (1963) e Os incinerados e os salvos (1986). O austríaco Hans Mayer (1912-1978), que mudou seu nome para Jean Améry, fez uma profunda reflexão sobre a tortura e as consequências de sua estada em diversos campos de concentração nas obras Mais além da culpa e da expiação (1966) e Levantar a mão sobre si mesmo (1976). O espanhol Jorge Semprún (1923), prisioneiro em Buchenwald, fez uma lúcida exposição de sua experiência em A longa viagem (1963), A escrita ou a vida (1995) e Viverei com teu nome, morrerás com o meu (2001), entre outros títulos.
O extermínio
Os campos haviam sido criados ao longo da década de 1930 como "centros de detenção preventiva".
Os internos eram de origem variada. Judeus e ciganos eram acompanhados por testemunhas de Jeová, alcoólatras, delinquentes comuns ou mendigos. O capítulo dos dissidentes políticos incluía, por exemplo, pessoas detidas por ouvir emissoras ilegais.
O regime disciplinar dos campos era muito rigoroso, embora existissem diferenças de um para outro. A tentativa de fuga era castigada com cinquenta chibatadas. A alimentação era muito deficiente, e a carne só era incluída na dieta daqueles que faziam os trabalhos mais pesados. Em vários campos foram realizadas experiências com seres humanos para testar vacinas, cirurgias sem anestesia ou esterilizações forçadas.
As matanças em massa eram executadas por fuzilamento ou intoxicação por gás (primeiro com monóxido de carbono, depois com Zyclon-B). Aproveitava-se tudo o que fosse possível dos cadáveres. Depois, os restos eram queimados nos fornos crematórios.
Anne Frank
O nome de Anne Frank é um símbolo da repressão nazista e, ao mesmo tempo, um constante aviso e lembrança de até onde pode chegar o comportamento criminoso do gênero humano. A família de Anne era judia, proprietária de uma indústria química, e residia em Frankfurt, até que, com o início das perseguições, emigrou para os Países Baixos. Quando esse país foi invadido, em 1940, a situação da família tornou-se extremamente perigosa. Em outubro daquele ano, as empresas holandesas foram obrigadas a obedecer a um decreto alemão sobre titularidade judaica. Para evitar a deportação, a família, junto com três conhecidos, refugiou-se num sótão camuflado da empresa. Durante a reclusão, a jovem Anne Frank anotou, simulando uma conversa com uma amiga, num diário presenteado por seu pai, as experiências do confinamento. Hoje em dia suas anotações são uma denúncia constante contra a intolerância: "Qualquer que seja meu senso de gratidão, não me é possível afogar meus sentimentos. Andar de bicicleta, dançar, assoviar, olhar para as pessoas, sentir-me jovem e livre, é por isso que anseio." Anne e sua irmã morreram no campo alemão de Bergen-Belsen, vítimas de uma epidemia de tifo, apenas dois meses antes que o campo fosse libertado pelas tropas aliadas.

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