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A era do totalitarismo: fascismo e nazismo
A ascensão do fascismo, no quadro da crise dos anos 1930, significou a derrubada de dois grandes mitos. Por um lado, a esperada radicalização da luta de classes que conduzisse à revolução – tal como, naqueles momentos, a Terceira Internacional acreditava perceber. Por outro lado, as classes que serviam de apoio à grande burguesia não eram respeitadas pela crise, e portanto a situação favorecia as dúvidas em relação à credibilidade do liberalismo político. As medidas econômicas dos governos de coalizão não conseguiram restabelecer a prosperidade do sistema capitalista entre 1931 e 1937. A contestação ao parlamentarismo burguês reclamava a ascensão de um "poder forte". Este já se havia estabelecido na Itália desde 1922, na Espanha desde 1923, e na Alemanha o Partido Nacional Socialista o faria em 1933.
Uma sociedade desintegrada
Seguindo-se à crise de 1929 sobreveio uma grande depressão na década de 1930 que atingiu todas as economias mundiais. A quebra da bolsa de Nova York e a Grande Depressão foram dois fenômenos distintos, embora interligados. A depressão começou nos Estados Unidos. A etapa 1919-1939 foi um período de transição entre o capitalismo do século XIX, anterior à primeira guerra mundial, e o capitalismo moderno, posterior à segunda guerra mundial. O desemprego e a miséria seriam os primeiros e mais prementes problemas sociais da época. A profundidade da depressão da década de 1930 deve ser situada na inadequação do pensamento econômico aos novos tempos, no peso que a economia dos Estados Unidos tinha no conjunto da economia mundial, nas medidas protecionistas adotadas e no colapso do sistema monetário internacional.
O Reino Unido continuou a perder influência nas relações comerciais internacionais. Apesar de ter abandonado o padrão ouro e de forçar em 1931 uma desvalorização da libra a fim de favorecer o pagamento da dívida externa, estava totalmente desassistido por uma Comunidade Britânica de Nações que, sem mercados desenvolvidos e num contexto comercial protecionista, não podia rentabilizar seus investimentos no exterior. Ao mesmo tempo, as medidas para combater a inflação e a saturação do mercado interno puseram o país num índice de desemprego de 22,5% no fim da década de 1920, com os consequentes problemas sociais. Na Alemanha, o nacional-socialismo manteria desde 1933 uma política contra o desemprego – que havia afetado quase 30% da população ativa industrial – com êxitos importantes. As subvenções às empresas foram fundamentais, sobretudo para as siderúrgicas e aquelas dedicadas à construção de equipamentos industriais e de material de guerra. Todas essas iniciativas foram apoiadas pela população e vistas com receio pelo resto das potências europeias, pois eram interpretadas como sinais de uma nova tentativa de expansionismo alemão.
A França sofreria uma interrupção no crescimento durante esse período e, apesar de a crise tê-la afetado somente depois de atingir outros países, seus efeitos se traduziram em um desemprego que atingiu 24% da população ativa em meados da década de 1930. O início da crise situa-se em 1931. A França era um país pouco dependente do comércio exterior e contava com um comércio interior fortemente protegido com tarifas. Os projetos de governo de união nacional (1934) e a vitória da Frente Popular (1936) se encaminharam até a prática intervencionista contra a crise: fomento da produção pelo aumento do consumo obtido pelo aumento dos salários e introdução das quarenta horas de trabalho semanais e férias remuneradas, no marco de negociações coletivas. Estas medidas foram acompanhadas por algumas nacionalizações (indústria bélica, aeronáutica, ferroviária etc.). Apesar de todos os esforços, tais medidas fracassaram e o franco teve de ser desvalorizado.
Na Itália, a inviabilidade da política econômica dos últimos governos liberais favoreceria a conquista do poder por parte do Partido Fascista em 1922. A Itália das décadas de 1920 e 1930 era um país em vias de desenvolvimento no qual a massa trabalhadora empregada na agricultura ainda constituía o dobro da industrial, e os níveis de renda muito baixos. No período 1920-1938, a participação italiana no comércio internacional diminuiu, isolando sua economia e limitando-a à atuação do estado em setores como o armamentista e a construção de obras públicas. De fato, a insolvência e o colapso financeiro da Europa central, o isolacionismo dos Estados Unidos, a estagnação francesa, o atraso industrial italiano e a queda geral de exportações e produção, caracterizaram os anos da depressão.
O fascismo italiano
Em 1918-1919 surgiram os primeiros fascistas no norte da Itália. Constituíam grupos muito ativos que se definiam como "sentinelas da nação" e – como dissera o próprio Benito Mussolini – "se atreviam a tudo". Seu primeiro ato terrorista seria o incêndio da sede milanesa do jornal socialista Avanti.
Depois das ocupações de fábricas durante o ano de 1920, os "leopardos fascistas" promoveriam uma série de atentados em diversas cidades italianas. Em novembro de 1921, criado o Partido Nacional Fascista, aquelas "expedições punitivas" seriam retomadas contra pessoas marcadas e "tomando" cidades. Um verdadeiro exército armado agia impunemente. O fracasso sofrido por Mussolini nas eleições de 1919 já ficava distante. A oposição se manifestou na greve geral de agosto de 1922 – convocada por anarquistas e socialistas contra a violência fascista –, à qual os fascistas responderam com a "marcha sobre Roma" (27 de outubro). O próprio rei passaria em revista os "camisas-pretas" que recorriam à violência na capital italiana e deixou o governo a cargo de Mussolini, que se constituiria com maioria fascista para realizar um programa de "economias, ordem e disciplina".
No fim de 1922, o rei Vítor Emanuel III e o Parlamento davam plenos poderes a Mussolini e tinha início uma nova onda de violência. Após ganhar as eleições de abril de 1924 e depois do assassinato do deputado socialista Matteotti, o Parlamento foi dissolvido e começou a primeira etapa totalitária fascista na Itália. De 1925 a 1928 criou-se uma nova ordem corporativa, que acabaria com os sindicatos, com o direito de greve e com as liberdades políticas.
Em 1929, Mussolini firmou o Tratado de Latrão com o Vaticano, removendo assim uma questão histórica entre o reino da Itália e a Igreja Católica. Na década de 1930, consolidou-se um estado corporativo no qual o duce concentrava todos os poderes, construído sobre uma dura repressão a toda oposição democrática: invasão da Abissínia (1935), intervenção na guerra civil espanhola (1936-1939) em apoio aos sublevados contra a república, assinatura do pacto de amizade com a Alemanha (1939) e declaração de guerra à França e ao Reino Unido (1940).
O fascismo italiano conseguiu um amplo apoio social: empresários, políticos liberais e exército, Igreja e monarquia e outros grupos que se identificaram em parte com ele. Mussolini tendeu a comprometer-se com determinados setores, porém sem renunciar a uma liderança rígida sobre cada um dos interlocutores.
O nazismo alemão
As consequências da crise de 1929 na economia alemã foram sérias. A nação que já fora a segunda potência industrial do mundo despencava para o quinto lugar. Em 1930-1931 os efeitos da crise fizeram-se sentir plenamente: fuga de capitais, falências de bancos, desemprego que afetava cinco milhões de trabalhadores, estrangulamento dos mercados interno e externo, retração dos investimentos de capitais privados. Em 1933 Hitler declarava que o objetivo prioritário tinha de ser "garantir o pão de cada dia a cinco milhões de desempregados". Pela primeira vez depois da primeira guerra mundial, um país credor do estrangeiro passava a ser devedor. A Alemanha ia se transformando no elo mais fraco dos países capitalistas. A crise em que se encontravam a economia e as instituições liberais não fazia mais que facilitar as possibilidades do nacional-socialismo.
O surgimento do nacional-socialismo não pode ser apartado do protesto contra as humilhações do Tratado de Versalhes impostas pela questão das reparações de guerra. Bem arquitetada, a postura dos nazistas em defesa da propriedade privada granjeou-lhes o apoio dos bancos e da grande indústria. As promessas "socializantes" de seu programa logo seriam esquecidas e seus partidários eliminados em 30 de junho de 1934, em Munique (Noite das Facas Longas). O nazismo acabou salvaguardando os interesses de determinados monopolistas e banqueiros. Além disso, a impotência dos partidos tradicionais e as possibilidades que a constituição de Weimar abria para conceder poderes de exceção ao presidente (dissolver o Parlamento e nomear chanceler e governo), permitiram um processo que levaria à derrocada do regime republicano e à instauração de uma ditadura. O nacional-socialismo iria incorporar componentes nacionalistas xenófobos, antissemitas e antimarxistas. De início configurou-se como partido operário alemão em 1919 e, um ano depois, o partido incorporou as siglas de "nacional-socialista". Em 1923 os nazistas se sentiram fortes para incentivar uma "marcha sobre Munique", que fracassou e levou Hitler a passar alguns meses na prisão. O caminho golpista não fora bem-sucedido. Era preciso adotar a prática mais paciente de alcançar o poder de forma legal. Nesse ínterim, a atuação de grupos violentos seria intensificada. Mas, até chegar a este ponto, Hitler optou por impor sua autoridade no partido, consolidá-lo e obter sua plena legalização e, em 1926, refundá-lo com o nome de Partido Nacional Socialista. Em 1930 Goebbels comentou que "se apresentavam a deputados para paralisar a democracia". O congresso do partido nazista em Nuremberg (3-4 de agosto de 1929) representou o fim de uma fase de estruturação orgânica e o início de uma nova etapa: a intensificação do terrorismo das organizações paramilitares nazistas (SA e SS).
No auge de uma crise permanente, em 30 de janeiro de 1933, Hitler recebeu a proposta de formar um governo de coalizão tendo Von Papen como vice-chanceler. Assumindo o poder, Hitler eliminou o regime federal e instaurou o Terceiro Reich alemão, com a liquidação do estado democrático de direito e a inauguração de uma ditadura de partido único.
Em nome do Terceiro Reich alemão, os valores de um nacionalismo xenófobo e expansionista, assim como do grupo de corporações industriais que o apoiavam, ele viu-se impelido a uma "investida externa". A anexação da Áustria (Anschluss) ao território alemão em 1938, e a ocupação da Polônia, em 1939, abriram passagem para a criação da Grande Alemanha e para a segunda guerra mundial, em cujo processo houve oportunidade para a submissão de outros povos, bem como para cometer genocídio do povo judeu.

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