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iatrogenia
O médico, graças à ascendência que geralmente exerce sobre seus pacientes, pode transmitir-lhes confiança, tranquilidade, simpatia e otimismo, ou, com a mesma facilidade, despertar suspeita, mal-estar, revolta, ansiedade e fobias. A medicina dispõe de poderosos recursos que, se mal empregados, podem agravar o quadro patológico ou mesmo gerar novas doenças, ao invés de conduzir ao resultado esperado.
Iatrogenia é a patologia provocada por tratamento médico de qualquer tipo. Assim, as doenças iatrogênicas são aquelas causadas pelo emprego de medicamentos em geral (aplicados quer de modo criterioso, quer inadequado), por métodos de tratamento, como as radiações, ou ainda induzidas por atos cirúrgicos ou pela ação pouco prudente do médico. O conceito se estende também às ações indevidas dos assistentes do médico, dos enfermeiros e até de farmacêuticos.
Esses males, verdadeiras "doenças do progresso médico", aumentam de incidência devido a diversos fatores: o rápido desenvolvimento da indústria farmacêutica, que lança no mercado repetidamente novas drogas de valor incontestável, porém potencialmente iatrogênicas pelos efeitos colaterais nocivos que provocam; a propaganda intensiva dos medicamentos, financiada por uma indústria de alto poder econômico; o abuso de remédios por pessoas que os adquirem sem prescrição médica, por conselho de leigos, sugestão de curandeiros ou por confiar na própria intuição; a generalização das técnicas cirúrgicas que, ao mesmo tempo que solucionam problemas graves, também criam complicações e novas doenças; e a falta de tato de alguns médicos, que gera neuroses em doentes sugestionáveis.
Manifestações
É grande a lista das patologias iatrogênicas. Parte delas é provocada pelo uso de medicamentos: certos antibióticos causam reações graves e mesmo a morte; os anticoagulantes não raro favorecem hemorragias; a aplicação de anestésicos pode produzir reações tóxicas; e alguns tranquilizantes e estimulantes psíquicos provocam um sem-número de efeitos nocivos à saúde.
Os raios X exercem efeitos indesejáveis, como esterilidade, queimadura, câncer de pele, leucemia e malformações. A radioscopia é mais perigosa do que a radiografia simples ou a abreugrafia. É maléfica sob vários aspectos a irradiação pélvica da gestante, sobretudo na primeira metade da gravidez, pois os raios X atuam sobre o feto e as glândulas sexuais. O calor, os raios ultravioleta, a eletricidade e o ultrassom, largamente utilizados em fisioterapia, por exemplo, podem provocar queimaduras, exacerbação de processos latentes e outros danos à saúde.
Há registro na literatura médica de que a incidência de câncer na tireoide e de leucemia é maior nas crianças que se submeteram à radioterapia do timo e das amígdalas. A criança reage a certas drogas de modo peculiar: o mentol, por exemplo, simples descongestionante nasal, pode despertar intensos reflexos nas crianças de baixa idade e provocar acidentes graves. Nas pessoas idosas portadoras de arteriosclerose, os medicamentos hipotensores enérgicos em doses elevadas, ou mesmo terapêuticas, podem causar complicações sérias para o aparelho cardiovascular e o sistema nervoso.
A aplicação de purgativos oleosos favorece em geral a intoxicação por vermífugos. O emprego de adrenalina em cardiopatas ou hipertensos pode precipitar acidentes cardiovasculares. O exercício físico, as massagens e as manipulações, quando empregados sem adequada orientação, costumam agravar doenças preexistentes ou causar distúrbios locais (traumatismos, fraturas, deslocamentos, luxações). Muitas vezes uma cirurgia, quando não corretiva e plástica, é mutilante.
A administração de sangue de grupo incompatível provoca reações hemolíticas, choque e até insuficiência renal aguda. Agentes patogênicos vivos podem ser introduzidos no organismo acidentalmente por meio de injeções, punções, manipulações cirúrgicas e endoscópicas (broncoscopia, esofagoscopia etc.), vacinas, soros e transfusões. As injeções intravenosas podem causar choque pirogênico: calafrios mais ou menos intensos, falta de ar, aceleração do pulso, cianose (coloração azulada, difusa, da pele e mucosas), elevação da temperatura, dor de cabeça e dores lombares.
Abolir a prescrição é a melhor profilaxia da patologia iatrógena, quando esta é medicamentosa. Principalmente as drogas muito ativas, capazes de desencadear reações colaterais, exigem grande cautela, por parte do médico. O comedimento no emprego de drogas pode ser tão eficaz quanto o uso correto da medicação.

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