> Artigos relacionados

EV
picaresco, romance
Entregue à própria sorte no ambiente das ruas, o pícaro se tornou um mestre na observação de seu meio. Sua vida de expedientes, plena de criatividade, tornou-se objeto de escritores que lançaram as bases de uma das principais vertentes modernas da prosa de ficção.
O romance picaresco é um gênero de ficção surgido originalmente na Espanha e no século XVI. É narrado em geral na primeira pessoa, por um personagem urbano de baixo nível social, o pícaro, que vive de trapaças. Um dos frutos do Século de Ouro espanhol, e peculiar em sua prosa intensa e despojada de fantasias, o romance picaresco lida com as peripécias de um anti-herói que resolve de maneira prática e involuntariamente humorística seus conflitos com a moral e a sociedade. A crítica social, ingênua e amarga, é característica do gênero, tanto quanto o tom predominantemente cordial das caricaturas.
O recurso técnico adotado para melhor retratar a sociedade é apresentar o protagonista como servidor de vários amos. A linguagem coloquial, entremeada de provérbios e alusões pitorescas, acentua a eficiência do realismo. O romance picaresco conta a vida de um tipo que até então não se incluía na história ou na literatura. Insensível ante a desgraça e inclinado a extrair alguma lição dos contratempos, o pícaro é cínico no desprezo de toda lei, mas às vezes revela-se puro de espírito, sem consciência dos golpes que aplica. Seus ardis são o recurso de que dispõe para assegurar a sobrevivência. Acredita-se mesmo que a palavra "pícaro" remonte aos soldados esfarrapados, famintos e aventureiros que no século XV provinham da Picardia.
Histórico
O Satíricon, de Petrônio (escritor romano do século I da era cristã) é considerado, por muitos, um antecessor clássico do romance picaresco, mas só no fim da Idade Média apareceram na Espanha muitos dos elementos que depois seriam sistematizados no novo gênero literário, em obras como o Libro de buen amor, do século XIV, de Arcipreste de Hita; Spill ó Libre de les dones (1531; Espelho ou livro das mulheres), do catalão Jaume Roig; as Celestinas, relatos classificados como de "literatura lupanária", de vários autores e publicados de 1498 a 1542; Retrato de la lozana andaluza (1528; Retrato da andaluza louçã), de Francisco Delgado; e outros.
O romance picaresco propriamente dito começou na Espanha com o anônimo Lazarillo de Tormes, publicado em 1554. Nessa obra, o protagonista, Lázaro, conta sua vida na primeira pessoa, em forma epistolar, com extrema objetividade. É um tipo inicialmente muito humilde mas cheio de boas intenções, filho de pais "sem honra", que aprende a praticar pequenos golpes para saciar a fome. Com o tempo, lança mão de artimanhas para furtar. Pela primeira vez o personagem principal é miserável e infantil.
O menino observa com acidez o meio social e a cada fracasso reage com resignação realista. De ofício em ofício, em vão aspira ascender na escala social. A ação se passa na Espanha de Carlos V e a narrativa é simples, em capítulos divididos pelas várias experiências. A linguagem é sóbria e familiar, mas de tal precisão expressiva que destila um humor cruel e avassalador. O amor à vida material, apesar da dor e do desespero, é traço dos mais vivos da obra.
O sevilhano Mateo Alemán publicou em 1599 a primeira parte de Guzmán de Alfarache, e a segunda em 1605. A partir dessa obra, a figura do pícaro ficou definida como um personagem amoral, que vivia da caridade ou ingenuidade alheia, sem ofício, vítima também de seus próprios estratagemas. A argúcia na pintura dos costumes e a linguagem elaborada são os maiores méritos dessa obra, que alcançou tiragens muito grandes para a época e consolidou o gênero.
O pícaro do século XVII está longe do Lazarillo, pois a ingenuidade será cada vez mais substituída pela astúcia, às peripécias ganharão mais imaginação e o realismo das caricaturas muitas vezes dará lugar ao grotesco. Ainda em 1605 foi publicada La pícara Justina, de Lópes de Úbeda, em reação ao caráter moralizante de Alfarache: é a narrativa cômica e jovial de uma mulher que rouba seus amantes. No mesmo tom de burla e também sobre mulher delinquente apareceu La hija de la Celestina (1612; A filha de Celestina), de Alonso Salas Barbadillo.
Pertencem ainda ao gênero o "Rinconete y Cortadillo", das Novelas ejemplares (1613), de Cervantes e, em alguns aspectos, o próprio Don Quijote; La vida del escudero Marcos Obregón (1618), de Vicente Espinel, cujo protagonista, mais que pícaro, é um observador da vida; e sobretudo a História de la vida del Buscón llamado D. Pablos, ejemplo de vagamundos y espejo de tacaños (1626; História da vida do gatuno chamado D. Pablos, exemplo de vagabundos e espelho de trapaceiros), de Francisco de Quevedo, pintura cruel de uma sociedade. Obra-prima de humor grotesco e observação implacável, sua força narrativa faz a personagem principal encarnar com quase brutalidade os extremos da fome e da miséria.
Após a obra de Quevedo, há um esvaziamento formal do gênero. O último romance realmente picaresco na Espanha foi Vida y hechos de Estebanillo Gonzáles, hombre de buen humor, compuesta por él mismo (1646), de linguagem mais refinada e provavelmente escrita por Esteban González, bufão do duque de Amalfi.
Outras literaturas
Em alemão, a melhor criação do gênero é Simplicissimus (1669; O aventureiro Simplicissimus), de Grimmelshausen, considerado o primeiro romance alemão. Aborda a guerra dos trinta anos e apresenta o protagonista aos nove anos de idade, após presenciar os horrores cometidos pelos soldados, fugido de casa e criado por um ermitão. Com a morte deste, faz-se pícaro, mas no final se arrepende e reencontra a reclusão na floresta Negra.
Na França, o melhor exemplo foi o Gil Blas (1715-1735), de Alain René Lesage, tradutor de vários romances picarescos espanhóis. Aqui o pícaro, assim como os demais personagens, vem de uma classe social mais alta. O humor exprime-se em ironia suave, a observação é exata e as maneiras elegantes. O otimismo colore toda a obra.
Na Inglaterra, o Lazarillo foi traduzido pela primeira vez em 1586. A primeira obra do gênero em inglês foi Unfortunate Traveller (1594; O viajante infeliz), de Thomas Nashe, cuja narrativa, contudo, adquiriu cunho heroico. Nos séculos XVII e XVIII, foram representativos do gênero, ou aproximaram-se dele, The English Rogue Described in The Life of Meriton Latroon, a Witty Extravagant (1665; O malandro inglês descrito na vida de Meriton Latroon, um espirituoso extravagante), de Richard Head e Francis Kirkman; Moll Flanders (1722) e Colonel Jack (1722; Coronel Jack), de Daniel Defoe; além de obras de Tobias George Smollet e de Henry Fielding, como, até certo ponto, o Tom Jones (1749) deste último.
Na Holanda, em 1695 foi escrito por Nicolas Heinsius o grande romance picaresco Der vermakelife avontevrier (O alegre aventureiro), imitação do espanhol Espinel. Em português, reconhecem-se traços picarescos nas Obras do diabinho da mão furada, anônimo com manuscritos em Lisboa (na Academia das Ciências e na Biblioteca Nacional); e no "Escritório avarento" e nos "Relógios falantes" dos Apólogos dialogais (1721), de D. Francisco Manuel de Melo. No Brasil, o mesmo ocorre com as Memórias de um sargento de milícias (1852), de Manuel Antônio de Almeida.
No século XX, o pícaro não só continua a aparecer na literatura de vários países, como ganha a comédia cinematográfica americana, sobretudo na obra de Chaplin. O Carlitos de Vida de cachorro e de diversos outros filmes é, em todos os aspectos, um pícaro.

Subir