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EV
nervosa, Anorexia
É enorme a quantidade de pessoas que luta para perder peso, que faz dietas e que toma remédios para se manter em paz com a balança. Antigamente não era bem assim, afinal um pouco de gordura no corpo era sinal de saúde.  Entretanto, a medicina mostrou que não há vantagem em acumular tecido adiposo. E pior, surgiu toda uma pressão social, uma verdadeira ditadura da magreza levando muita gente a desenvolver sérios problemas de saúde relacionados à essa história inventada de que gente magra é mais bonita.
Como toda preocupação que se torna exagerada, essa também pode levar a casos graves de distúrbios da autoimagem e até a morte. Quando a magreza se torna obsessão, a pessoa chega a se olhar no espelho e enxergar uma imagem que não corresponde à realidade. A pessoa se vê obesa, não percebe seu real estado. Nesse caminho, é comum pessoas diminuírem muito a alimentação até praticamente ficarem sem comer.
Motivada por desequilíbrios emocionais, embora a pressão social com relação à aparência física também exerça seu papel, a anorexia nervosa atinge, sobretudo, mulheres, embora sua incidência esteja aumentando também nos homens.
O QUE É
Anorexia nervosa é o extremo emagrecimento, mais comum em mulheres jovens, decorrente da rejeição de alimentos, por motivos emocionais ou psicológicos. O peso corporal pode cair à metade do normal, e a esse comportamento comumente associam-se sintomas como problemas digestivos, acompanhados de vômitos, às vezes induzidos, amenorreia (falta de menstruação), crescimento de pelos corporais e hiperatividade. Ao contrário do que sucede com vítimas de fome, muitas vezes os pacientes de anorexia nervosa mantêm sua energia e suas atividades cotidianas em níveis aproximadamente normais. Em geral não demonstram preocupação com seu estado de desnutrição, nem sentem fome.
Em casos mais graves, surgem transtornos no equilíbrio hidrossalino, de especial gravidade nos pacientes que provocam o vômito. Relatam-se também alterações cardíacas, que, em casos extremos, podem ser fatais. O tratamento da anorexia nervosa exige uma plena cooperação entre o paciente, o médico e um psiquiatra. Alguns casos não respondem a tratamento. O índice de mortalidade por anorexia nervosa atinge entre 15% e 20% dos casos. Eles estão associados a complicações clínicas ou a suicídios, pois a depressão é um distúrbio grave que pode manifestar-se no transcorrer dessa doença.
REGISTROS HISTÓRICOS
É muito antigo o registro de histórias de pessoas com bulimia e anorexia nervosas. Sabe-se que, desde a Antiguidade, algumas pessoas faziam jejum ou vomitavam várias vezes por dia para emagrecer ou manter o peso que julgavam ideal. Na Idade Média, segundo Taki Cordás, médico psiquiatra e professor da Universidade de São Paulo (USP), santas e beatas da Igreja Católica tinham um padrão de conduta bastante semelhante ao das anoréxicas de hoje. Mudavam apenas os fatores desencadeantes do processo. São clássicos os casos de Santa Catarina de Sena ou de Santa Maria Madalena que faziam jejum, vomitavam e usavam ervas purgantes. Tratava-se de um jejum beatífico que tinha como propósito maior aproximação com Deus.
ANOREXIA E BULIMIA
É comum ouvir e ler sobre anorexia e, muitas vezes, o termo bulimia vem junto. Mas, você sabe qual a diferença?
Na anorexia nervosa, o emagrecimento é muito acentuado. Para avaliá-lo, utiliza-se como parâmetro o IMC (índice de massa corpórea que é igual ao peso dividido pela altura ao quadrado). Na mulher, esse número deve variar entre 19 e 24 e nos homens, entre 20 e 25. Índices inferiores a 17 ou 17,5 indicam perda de peso importante. O médico psiquiatra da USP, Taki Cordás, afirma que pacientes com anorexia nervosa sempre apresentam peso abaixo do normal e recusam-se a se alimentar adequadamente mesmo sabendo do risco que correm. Dedicam-se a atividades físicas exageradas, jejuam, vomitam, usam recursos purgativos e moderadores de apetite, porque têm uma distorção grave da autoimagem. Moça esquálida, pesando 20 kg, é capaz de sentir-se obesa e dizer: "Olha como meu quadril está enorme! Eu estou um elefante, preciso continuar emagrecendo!". Segundo ele, no Hospital das Clínicas, às vezes, aparecem pacientes que antes de qualquer atendimento psiquiátrico são mandados para a UTI devido à gravidade do seu estado de inanição.
Já na bulimia, os sintomas são diferentes. Não é a magreza que chama a atenção. Às vezes, são mulheres de corpo escultural que cuidam dele de maneira obsessiva. Passam o dia fazendo dieta. Vão a restaurantes e pedem somente uma salada. Se houver uma batatinha palha no prato, colocam-na de lado. No entanto, de uma hora para outra abrem a geladeira ou vão a uma confeitaria e comem tudo o que veem pela frente.
Táki Cordás explica que apesar de a ingesta normal do indivíduo variar entre 2 mil Kcal e 2.500 Kcal diárias, elas conseguem comer num único episódio de 5 mil Kcal a 20 mil Kcal de uma vez. Depois vomitam muito. Algumas chegam a vomitar 5, 10, 15 vezes por dia para evitar o aumento de peso e provocam tantos vômitos que chegam a ferir os dedos.
Toda essa tendência que vê na magreza a beleza assumiu características assustadoras de 1950/1960 para cá. A pressão aumentou o número de portadores dessas patologias. Cada vez mais gente, que não apresenta motivo algum para fazer dieta, restringe a alimentação de forma drástica. No Brasil, a situação se agrava porque, infelizmente, é fácil obter moderadores de apetite ou hormônios tiroidianos.
PIORA NAQUELES DIAS
Há estudos que demostram que certas mulheres de corpo escultural, verdadeiras capas de revista, estão insatisfeitas com o próprio corpo. Essa autoimagem distorcida é comum nas mulheres, mas não costuma ser tão grave que possa causar anorexia nervosa. Pelo que especialistas vêm estudando, é muito maior a porcentagem de mulheres descontentes com o corpo do que a de homens. E todo o descontentamento aumenta no período pré-menstrual, ou naquelas épocas em que elas estão mais irritadas, ansiosas ou deprimidas.
Entre as complicações da doença estão, entre outras, osteoporose, infertilidade e problemas cardíacos. As mulheres muitas vezes deixam de ter períodos menstruais por conta da fraqueza e da desnutrição.
A patologia pode evoluir muito rápido. Tão rápido que as famílias nem percebem o que está acontecendo, uma vez que a paciente costuma disfarçar a magreza exagerada vestindo roupas largas e uma peça sobre a outra. Além disso, passam mais tempo fora de casa e, quando voltam, dão a desculpa de que não querem comer, pois já jantaram ou almoçaram em outro lugar. De maneira geral, os familiares só descobrem o que está acontecendo meses depois que o problema está instalado. É comum relatos de alguém que, por acaso, surpreende a moça trocando de roupa e a vê nesse quadro esquelético.
HOMENS E MULHERES
Em torno de 90% a 95% dos casos de anorexia nervosa ocorrem com mulheres. No Ambulim, um serviço do Hospital das Clínicas de São Paulo, mais de 700 pessoas já foram atendidas e, segundo o médico Cordás, o número de homens não chega a dez. Nos Estados Unidos, os casos de homens com anorexia estão entre 10% e 15%. Nas clínicas privada o número de crianças e adolescentes tem crescido bastante ultimamente, o que é bem preocupante.
A ideia de emagrecer, ficar com o corpo "sarado" e com a musculatura abdominal pronunciada está se tornando relevante para os homens. Homens bulímicos já existem vários e os ex-atletas representam uma população de risco importante. Muitos param de praticar esportes, ganham peso e começam a vomitar ou a recorrer ao uso de laxantes e moderadores de apetite para não engordar mais.
OSSOS DO OFÍCIO, SERÁ?
As modelos, seguidas das bailarinas, ganham disparado em casos de anorexia. Uma pesquisa feita na Argentina demonstrou que o índice de bulimia e anorexia nervosas alcançava 50% das profissionais que dançavam no Teatro Colón de Buenos Aires.
Outro grupo de risco são os jóqueis, porque 100 gramas de diferença no peso pode representar desvantagem importante numa corrida. Os atletas olímpicos constituem outro grupo. Não será de estranhar se, na próxima, Olimpíada houver notícias sobre a morte de atletas que tomaram anabolizantes ou emagreceram demais. Correm risco, ainda, as estudantes de medicina, psicologia e nutrição.
CAUSA E TRATAMENTO
A causa é desconhecida. Alguns componentes genéticos podem ter um papel na doença, assim como fatores culturais, uma vez que a prevalência da doença é maior em sociedades que valorizam a magreza. A anorexia tem muitas vezes início na sequência de uma alteração significativa na vida ou de um evento que induza ao estresse.
O tratamento da anorexia consiste em devolver à pessoa um peso saudável, além de cuidados e tratamentos relativos aos problemas psicológicos. Embora os medicamentos não ajudem a ganhar peso, podem ser usados para tratar a ansiedade ou depressão associados à doença.
Não há um medicamento específico para anorexia nervosa, mas os antidepressivos são usados habitualmente, porque essas moças costumam apresentar também sintomas de depressão e muitas são tomadas por pensamentos obsessivos anteriores ou concomitantes à doença. Põem-se, por exemplo, a arrumar as roupas ou a contar compulsivamente o número de calorias dos alimentos ou, ainda, a somar os algarismos das placas dos carros que encontram na rua, sintomas esses claramente obsessivos.
Em alguns casos, verifica-se a ocorrência da automutilação ou tricotilomania, isto é, elas passam a arrancar pelos, cabelos ou sobrancelhas. Para atenuar esse tipo de comportamento, podem ser indicados alguns antidepressivos que agem com eficácia sobre a serotonina.
Segundo Cordás, para tratar de pessoas com distúrbio alimentar é preciso conhecer a psiquiatria inteira porque é frequente a associação dessa patologia à depressão, síndrome do pânico, comportamentos obsessivo-compulsivos, cleptomania, automutilação, promiscuidade sexual, alcoolismo e abuso de drogas. É raro encontrar um quadro isolado e todas as manifestações da doença precisam ser tratadas.
Alguns tipos de psicoterapia podem ser úteis. Por vezes é necessário dar entrada no hospital para recuperar o peso. Enquanto algumas pessoas apresentam apenas um único episódio e se recuperam, outras podem apresentar vários episódios de anorexia ao longo dos anos. Muitas das complicações melhoram ou resolvem-se ao recuperar o peso normal.
DA SAÚDE À DOENÇA
Mas, quando o controle de peso deixa de ser saudável e passa a ser uma patologia? É muito difícil estabelecer uma linha dividindo essas duas situações. Sabe-se que fazer dieta aumenta em 20 vezes o risco de desenvolver anorexia ou bulimia nervosas, mas não se consegue distinguir com precisão a dieta que atende à necessidade real de emagrecimento quando a pessoa ganhou peso, daquela que indica o início do processo psicopatológico.
Há fatores, no entanto, que podem favorecer o aparecimento da doença. É o caso de, na mesma família, várias mulheres terem bulimia, anorexia, depressão ou pais alcoólatras. Estudos de gêmeas com anorexia nervosa ou bulimia apontam para a comorbidade, ou seja, a associação de determinadas doenças a uma predisposição genética importante nessa área. Outros estudos referem-se à personalidade dessas moças descritas pelas famílias como exemplares: boas filhas, primeiras alunas da classe, passavam o tempo todo mergulhadas nos livros. Esse comportamento de certa forma obsessivo pode ter servido para despistar a atenção dos familiares e ser sintoma inicial da doença.
Em outros casos, pesa o padrão do comportamento familiar. Às vezes, ao atender uma menina anoréxica, percebe-se a obsessão de seus pais pelo peso e imagem corporal. De qualquer forma, é indiscutível a existência de uma alteração da neuroquímica cerebral, especialmente da serotonina e da noradrenalina nesses casos.
Na prática médica, anorexia quer dizer falta de apetite. Por isso, anorexia nervosa não é o nome mais indicado, mas é o que todos costumam dizer. No começo, a mulher vive um sofrimento. Sente fome, briga com ela e tenta envolver-se em inúmeras atividades para se distrair. Depois de algum tempo, porém, há uma perda significativa do apetite. Segundo o médico Cordás, mesmo meninas colaboradoras – o que é raro acontecer nesses casos porque pacientes com anorexia, ao contrário do que ocorre em qualquer outro problema, jogam no time da doença – apresentam dificuldade séria para comer. Para convencê-las, são usados argumentos que comparam a comida a um remédio que precisa ser tomado de qualquer jeito. É preciso forçar a ingesta. Nessa fase, não se pode pensar no prazer ligado à alimentação.
As anoréxicas parecem ser aliadas da doença e não da saúde. O comportamento natural de uma pessoa, que sente dor ou um mal-estar qualquer, é procurar o médico. Na anorexia nervosa, ela faz exatamente o contrário. Em 90% dos casos, chega quase arrastada pelos pais ao consultório, chamando-os de malucos, pois se sente muito bem daquele jeito e seus exames são normais. De fato são mesmo, porque a alteração laboratorial só se manifesta num estado avançado da doença. Então, o médico orienta como deve ser a nutrição da paciente, orienta a terapia familiar e entra com a medicação, mas ela reage negativamente, dizendo que ele está louco e que não vai seguir suas recomendações porque não quer engordar.
ORGANISMO AFETADO
A primeira alteração aparece na pele e nos pelos. A pele fica extremamente seca e coberta por "lanugo", pelos que se parecem com barba de milho. Essas moças apresentam também amenorreia, isto é, deixam de menstruar e sofrem regressão nas características femininas. Os seios e os grandes lábios praticamente desaparecem.
No que se refere à menstruação, quanto mais tempo ela estiver ausente, maior dificuldade a mulher encontrará para engravidar e caso o consiga, o que é raro, maiores dificuldades encontrará durante o parto.
No entanto, a osteoporose pode ser considerada a manifestação mais grave da doença. Fraturas podem ocorrer espontaneamente. A pessoa está andando e cai porque um osso se quebrou sem ter sofrido nenhum traumatismo direto.
Além disso, alterações intestinais e cardíacas importantes são frequentes, porque muitas anoréxicas não só deixam de comer adequadamente como passam a usar laxantes e diuréticos. Como se sabe, o diurético provoca queda de potássio, elemento fundamental para o bom funcionamento do coração. Sua ausência pode causar morte por arritmia ou parada cardíaca. Associado aos laxantes, o diurético aumenta a perda de água do organismo, o que pode causar desidratação e insuficiência renal. No Hospital das Clínicas, há pacientes obrigados a fazer hemodiálise, porque perderam um rim por causa da desidratação.
Curioso é que muitas dessas mulheres transportam esse padrão de comportamento alimentar para os filhos e proíbem as crianças de irem a festinhas para evitar a tentação de comer um brigadeiro. Essas mães anoréxicas começam a restringir a dieta das crianças desde cedo e criam filhos desnutridos. As coisas chegam a tal extremo que se faz necessário alertar os parentes próximos para intervirem e interromperem esse processo prejudicial ao desenvolvimento infantil.

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