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Sacro Império Romano-Germânico
Nome oficial do Império fundado por Oto I o Grande (962), que compreendia originalmente os reinos da Germânia, Itália e Borgonha. Dissolveu-se em 1806.
"Nem sagrado, nem império, nem romano", segundo a irônica definição de Voltaire, o Sacro Império Romano-Germânico foi uma tentativa dos governantes alemães de reconstituir o Império Romano do Ocidente, cujo território havia sido reunificado no ano 800 por Carlos Magno.
Sacro Império Romano-Germânico é a denominação empregada pela historiografia contemporânea para designar o conjunto de territórios submetidos à autoridade dos soberanos germânicos após o desaparecimento da linhagem carolíngia, no período que se estende desde a coroação de Oto I, no ano 962, até a renúncia formal de Francisco II, em 1806. Salvo em seus primórdios, nunca chegou a alcançar a magnitude do Império Romano, no qual se inspirou.
A formação do novo império deveu-se às mesmas razões que já haviam sustentado o império carolíngio: a tradição do antigo Império Romano, preservada pela igreja em ideias e fatos; a concepção de unidade da igreja cristã, que necessitava de uma contrapartida secular; e o pensamento filosófico da época, que reclamava uma Europa unida sob um só governo. A idéia de unidade política era dificultada pela tendência à fragmentação dos poderes, própria da organização feudal. O mesmo não acontecia com a idéia de unidade cristã. Assim, o Sacro Império Romano-Germânico, em sua proposta de reagrupar os povos da Europa católica para governá-los "conforme a missão especial que lhe fora confiada por Deus", recorria à única concepção possível de unidade.
Origens e desenvolvimento
Desde o século IX a região a leste do Reno tornara-se o centro político do antigo império carolíngio. No ano 919, a coroa da Germânia foi entregue ao poderoso duque da Saxônia, Henrique I, que consolidou sua supremacia e desejou ser coroado imperador pelo papa, em Roma. Coube a seu filho Oto I o Grande realizar esse sonho, no ano 962. Fundada sobre uma base territorial alemã, a instituição imperial alcançou seu máximo prestígio entre os séculos X e XIII. Englobava, além do reino da Germânia, constituído de seis ducados (Saxônia, Baviera, Francônia, Suábia, Lorena e Boêmia), o norte da Itália e o reino da Borgonha, incorporado em 1033. Henrique III, coroado em 1046, conseguiu depor vários papas e nomear um de sua confiança; mas depois da bula In Nomine Domini, de Nicolau II, que transferiu para o sacro colégio o direito de eleger o papa, o poder do papado não cessou de aumentar.
A primeira crise que abalou a ordem imperial ocorreu durante o governo de Henrique IV, rei de 1084 a 1106, em decorrência das medidas renovadoras adotadas pelo papa Gregório VII para restaurar a autoridade pontifícia. O antagonismo entre o império e a Santa Sé manifestou-se na controvérsia conhecida como "questão das investiduras", temporariamente solucionada com a Concordata de Worms, em 1122, entre Calisto II e Henrique V: o imperador renunciava à investidura espiritual dos bispos e abades, reservada ao papa, e reconhecia a liberdade das eleições cardinalícias, mas conservava a prerrogativa da investidura temporal, ou seja, a entrega dos domínios territoriais correspondentes à circunscrição eclesiástica.
No século XII, o Sacro Império Romano-Germânico conheceu novo período de esplendor com a dinastia de Hohenstaufen (1125-1250), que afrontou abertamente o poder papal. Frederico I Barba-Roxa interpretou o compromisso de Worms segundo seus interesses e julgou-se no direito de intervir nas eleições episcopais sempre que houvesse desacordo entre os eleitores, com o que manobrou a investidura temporal para nomear apenas bispos de sua confiança. O choque com o papado foi inevitável. Sentindo-se apoiado pela Alemanha, o imperador tentou ainda recuperar a Itália, que fora dominada pelos lombardos, e readquirir a antiga preponderância do império sobre o poder da igreja. Enfrentou uma coligação das cidades italianas, prontas a apoiar a Santa Sé. Tornou-se cada vez mais difícil conciliar os domínios da Itália e da Alemanha, embora a união das coroas da Sicília e da Germânia, mediante o casamento de Henrique VI com a herdeira do reino normando, tenha restabelecido por algum tempo o equilíbrio de forças na península.
O processo de declínio do império já era, no entanto, irreversível. Durante os três primeiros séculos de dominação da dinastia austríaca dos Habsburgos – entre a ascensão de Rodolfo de Habsburgo, em 1273, até a abdicação de Carlos V, em 1556 – as concepções de uma Europa religiosa e secularmente unida foram pouco a pouco desaparecendo, embora os governantes alemães continuassem a chamar-se imperadores.
Em 1310, ressurgiu o conflito com o papado, já então estabelecido em Avignon e sob a influência do rei da França. Henrique VII invadiu a Itália e proclamou Roma sua capital, para tentar a reconstituição do antigo império. Apesar de excomungado pelo papa João XXII, seu filho Luís IV fez-se coroar em Roma, em 1328, por representantes da população da cidade. O enfraquecimento do império foi completado pela Bula de Ouro, edito que o imperador Carlos IV de Luxemburgo promulgou em 1356 fixando o sistema de transferência da coroa imperial e o número de príncipes eleitores, inicialmente sete. Eliminava-se assim a interferência papal na designação do soberano, mas fazia-se também com que a dignidade imperial ficasse circunscrita ao território da Germânia e o império reduzido a uma confederação de estados eleitores.
Após a frustrada tentativa de Sigismundo, entre os anos de 1415 e 1417, de influir nas deliberações do Concílio de Constança, praticamente desapareceu da Europa o espírito de unidade. Mesmo sob Carlos V, que por ocasião da Reforma parecia dominar um império tão grande quanto o de Carlos Magno, a existência de um império era ilusória. O soberano, na verdade, reunira um punhado de territórios separados, mas faltava uma força vivificante que os unisse.
Após a abdicação de Carlos V, em 1556, o império se restringiu aos estados alemães, sob o domínio da casa de Habsburgo. O papel do imperador tornou-se secundário e simbólico. O Tratado de Vestfália, de 1648, solução para a crise político-ideológico que abalava a cristandade desde o século anterior, consagrou o desmembramento da Alemanha e a ineficácia do império como elemento unificador. Em 1700, a concessão do título de rei a Frederico I da Prússia, um dos eleitores nomeados pela Bula de Ouro, deu início ao conflito entre a casa austríaca dos Habsburgos e o poder prussiano. Em 1805, a vitória de Napoleão sobre Francisco II em Austerlitz capacitou-o a abolir o Sacro Império Romano-Germânico até mesmo como título honorífico, e a reorganizar os estados alemães na Confederação do Reno, separada do império austríaco. Em 6 de agosto de 1806 o último "imperador romano", Francisco II, reconheceu o fato consumado e renunciou formalmente à dignidade imperial.

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