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gastrenterologia
Medicina. s. f. Parte da medicina que estuda as doenças do estômago e dos intestinos.
Para fins de estudo das causas e tratamento de suas doenças, o aparelho digestivo é subdividido em partes. Essa subdivisão compreende às vezes um órgão determinado, como a boca ou o estômago, e outras vezes estabelece-se dentro de um mesmo órgão, como é o caso dos intestinos, dividido em delgado e grosso, sendo este, por sua vez, também subdividido em ceco, cólon e reto.
Gastrenterologia é a especialidade da medicina voltada para o estudo dos órgãos que constituem o tubo digestivo e para a análise, prevenção e tratamento das moléstias que afetam tais componentes. Devido à complexidade estrutural e à diversidade de mecanismos que atuam na função digestiva, as doenças gastrenterológicas apresentam notável variedade, tanto em suas manifestações clínicas como no grau de gravidade que podem alcançar, e entre elas encontram-se alguns dos processos patológicos de incidência mais elevada, como as úlceras de estômago e duodeno, a gastrite ou a apendicite.
Resenha histórica
A análise dos processos patológicos do aparelho digestivo alcançou, modernamente, um grau de especificidade e precisão que permite tratar satisfatoriamente boa parte das manifestações clínicas. Multiplicaram-se, ao longo da história, as contribuições de químicos, anatomistas, fisiologistas etc., sem as quais não se teria podido alcançar o nível atual de desenvolvimento.
Já na antiguidade, os primeiros artífices da medicina – Hipócrates, Areteu da Capadócia, Galeno etc. – ocuparam-se com o estudo das afecções digestivas. Posteriormente, e, sobretudo a partir do Renascimento, sucederam-se pesquisas e descobertas tais como as de Leonardo da Vinci, que fez descrições do apêndice e do fígado, de Marcello Malpighi, que no século XVII realizou notáveis trabalhos sobre a função biliar, ou de Théophile Hyacinthe René Laënnec, que já no século XIX observou formações tumorais no estômago, como o chamado cirro encefaloide, e estudou a cirrose hepática.
Os avanços da ciência em geral e da medicina em particular deram lugar à adoção de técnicas e métodos de tratamento que levaram à reversão de diversos processos gastrenterológicos até então considerados incuráveis. Assim, em 1885, Charles McBurney praticou a primeira extirpação do apêndice nos casos de apendicite; Victor Hanot, também no final do século XIX, analisou numerosas formações tumorais do fígado; e Hans Kehr idealizou em 1896 um método de extirpação da vesícula biliar chamado colecistectomia com drenagem em T, que se mantém em vigor.
A melhora das condições de segurança, dos recursos da anestesia e dos meios terapêuticos levou à ampliação dos tratamentos cirúrgicos e um notável crescimento da disponibilidade de medicamentos específicos para transtornos e lesões do aparelho digestivo.
Sinais e sintomas gerais
São vários as manifestações sintomáticas comuns e inespecíficas na gastrenterologia. Como em outras disciplinas clínicas, o sintoma referido com maior frequência pelo paciente é a dor, que em alguns casos apresenta características especiais e pode ser indício para o diagnóstico.
A chamada cólica, por exemplo, é uma sensação dolorosa aguda da região abdominal, produzida pela contração espasmódica dos órgãos digestivos que apresentam fibras musculares lisas. Distinguem-se as cólicas renais, de estômago, pancreáticas, hepáticas etc. Pode haver outras manifestações dolorosas, em forma de constrição, ardência, pontada, compressão ou peso no órgão afetado.
Entre os sintomas mais habituais das moléstias gastrenterológicas, contam-se também as náuseas e os vômitos – que dão lugar à expulsão repentina de substâncias contidas no estômago –, a disfagia, dificuldade de deglutição dos alimentos que, quando dolorosa, se denomina odinofagia; e a anorexia ou perda do apetite.
É também comum na sintomatologia a aparição de halitose ou hálito fétido. Trata-se de um sinal frequente de indicações muito diversas. A quantidade e diversidade de sintomas mais específicos de cada lesão no contexto da gastrenterologia são enormes, podendo-se diferenciar grande quantidade de queixas, como a sialorreia ou fluxo excessivo de saliva, a diarreia ou evacuação intestinal mais frequente do que de hábito, e a prisão de ventre ou retenção das fezes.
Afecções da boca e do esôfago
O estudo e o tratamento das afecções da boca enquadram-se também no âmbito da gastrenterologia, já que a cavidade bucal faz parte do aparelho digestivo. Além dos problemas dentários, que competem à odontologia, as lesões mais habituais na boca são os tumores, a queilite ou inflamação dos lábios e as aftas, pequenas vesículas que afetam a mucosa bucal e que podem apresentar ulcerações.
No que se refere ao esôfago, conduto muscular membranoso que une a faringe e o estômago, os transtornos mais comuns são os chamados divertículos esofágicos (dilatações da parede do órgão) e as esofagites ou inflamações, que podem decorrer de diferentes causas. Também é notável a incidência de alterações na função motora ou dissinergias e as chamadas varizes esofágicas, por dilatação das veias que irrigam o conduto.
Afecções do estômago
O músculo oco que tem a função de digerir os alimentos mediante seus movimentos e a secreção dos sucos gástricos vê-se acometido por numerosas doenças de diversa natureza, provenientes, em boa parte dos casos, de uma nutrição insatisfatória. Entre as moléstias gástricas de maior incidência, deve-se citar a úlcera, perda de tecido da mucosa circunscrita a uma área determinada; os tumores; e, com menor incidência, os divertículos e a chamada hérnia de hiato, passagem de uma parte do estômago através do hiato esofágico, que é a cavidade do diafragma pela qual passa o esôfago.
Embora a terapêutica das doenças estomacais apresente grande variedade, são básicos para o tratamento de muitos quadros clínicos os medicamentos antiácidos e anticolinérgicos, que reduzem a estimulação nervosa do estômago, e sedativos, já que uma percentagem relativamente alta dos distúrbios gástricos é de origem emocional.
Afecções do fígado e do pâncreas
O fígado é provavelmente o órgão que maior multiplicidade de quadros clínicos pode apresentar. As diversificações de suas funções e as complexidades de sua estrutura o expõem a doenças de incidência elevada, em que se ressalta a hepatite.
Entre as doenças crônicas que afetam o fígado, a mais séria é a cirrose hepática, que se caracteriza pela manifestação de alterações dispépticas, sangramento intestinal, icterícia e, por fim, coma hepático. Também acometem o fígado diversas infecções, tanto microbiológicas como parasitárias. No que diz respeito a tumores, o tecido hepático apresenta um índice de afecção da ordem de 2,5% e é muito habitual a relação entre cirrose e câncer.
As vias biliares apresentam uma série de enfermidades específicas, como a colecistite, ou inflamação da vesícula biliar, e a colelitíase, ou desenvolvimento de cálculos biliares. No que diz respeito ao pâncreas, as afecções mais comuns são as inflamações ou pancreatites, e os quadros tumorais.
Enfermidades intestinais
Além das inflamações e das formações de divertículos, que no intestino dão lugar a enterites e diverticulites, respectivamente, os condutos intestinal delgado e grosso apresentam uma série de doenças de grande especificidade. Tal é o caso da chamada síndrome da má-absorção, decorrente de uma transferência anormal de materiais nutrientes da luz intestinal para a célula e vice-versa.
Outra enfermidade de grande incidência é a chamada síndrome de intestino irritável, colite espástica. Trata-se de um conjunto de transtornos – vômitos, diarreia, disfagia – produzidos pela coincidência de determinadas circunstâncias como os estados de ansiedade, a ação irritante de alimentos ou remédios, os condicionamentos alérgicos etc. A inflamação do apêndice ileocecal ou apendicite também constitui considerável percentagem do conjunto de enfermidades intestinais.
No que se refere ao desenvolvimento de tumores, localiza-se no intestino o maior número de casos no aparelho digestivo. Entretanto, a variabilidade de manifestações benignas ou malignas (câncer) condiciona em certa medida esse dado. A porção terminal do intestino, integrada pelo reto e pelo ânus, também é acometida por processos patológicos específicos, como a estenose, ou estreitamento do reto, e as hemorroidas, pequenas formações vasculares constituídas por dilatação dos capilares venosos que irrigam a área.
O trato gastrintestinal em seu conjunto é, além disso, o sistema fisiológico em que se localizam os agentes causadores de grande parte das enfermidades infecciosas. É o caso da grande maioria das enfermidades parasitárias por nematódeos (lombrigas e ancilóstomos), cestoides (tênias) e vermes intestinais de todo tipo, assim como alguns protozoários. Por exemplo, a Entamoeba histolytica, agente de disenteria amebiana, instala-se no fígado e no intestino grosso, quando invade o organismo. Também se localizam no trato intestinal as bactérias causadoras de enfermidades como a cólera, a disenteria bacilar, a tuberculose ou a febre tifoide.

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