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Bizâncio

Um império milenar
Ao contrário do que sucedeu nos territórios ocidentais do Império Romano, onde a dominação romana foi substituída pelos novos estados surgidos das invasões bárbaras, na área oriental do Mediterrâneo manteve-se vivo um império herdeiro de Roma, Bizâncio, que fez frente às investidas dos diferentes povos que pretenderam conquistá-lo. Bizâncio perdurou como Estado durante mais de um milênio (395-1453) e, embora sofresse graves perdas territoriais, conservou grande parte da herança Clássica, ao mesmo tempo que manteve aberta a ponte das relações entre a Ásia e a Europa.
As grandes etapas do Império Bizantino
A história do Império Bizantino caracteriza-se pela tensão entre os períodos de esplendor e as épocas de decadência e divisão. Sem grandes pormenores, pode-se resumir a sua história nas seguintes etapas:
  • Primeira etapa (395-850): nela inscrevem-se a primeira idade de ouro, que corresponde ao reinado de Justiniano (527-565) – que tentou reconstruir o Império Romano –, e a fase iconoclasta ou de proibição de imagens no culto (726-843).
    As campanhas militares de Justiniano I contra os reinos germânicos ocidentais levaram Bizâncio à sua máxima expansão territorial. Retrato de Justiniano num detalhe do mosaico de ca. 547 da Igreja de São Vital de Ravenna (Itália).

  • Segunda etapa (850-1050): o Império Bizantino conseguiu superar a crise dos séculos anteriores e viveu uma segunda idade de ouro com os imperadores macedônicos. As relações comerciais afastaram-se um tanto do Mediterrâneo e centraram-se no mar Negro, em contato permanente com a Rússia.
  • Terceira etapa (1050-1453): neste período formalizou-se a ruptura religiosa com a Igreja católica apostólica de Roma (Cisma do Oriente, 1054) e o Império Bizantino foi-se reduzindo em uma progressiva e inexorável decadência.
As origens políticas de Bizâncio
Em 330, o imperador romano Constantino Flávio fundou a cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia) no lugar que ocupava a antiga povoação greco-romana de Bizâncio, convertendo-a na capital política e cultural do Império, deixando Roma em segundo plano. Constantinopla pôde manter o controle do comércio entre o Mediterrâneo e o mar Negro e garantir o abastecimento e a comercialização do trigo da Síria e do Egito, ao mesmo tempo em que a sua localização geográfica a mantinha afastada das zonas mais expostas aos invasores bárbaros e lhe permitia um melhor controle sobre a área oriental, a mais rica e poderosa do Império Romano.
A morte do imperador Teodósio I (c. 347-395) provocou a divisão definitiva do Império Romano em duas grandes circunscrições administrativas: o Império do Ocidente (pars occidentalis), regido a partir de Milão pelo seu filho Honório (395-423), e o Império do Oriente (pars orientalis), com Constantinopla como capital e regido por Flávio Arcádio (395-408), também filho de Teodósio I. Os imperadores orientais puderam evitar a ameaça dos bárbaros, distanciando-a para oeste, mais pobre e frágil, e intervindo na política interna dos seus homônimos ocidentais.
Em 474, o imperador do Oriente, Leão I, apoiado por tropas bárbaras sob a chefia dos generais Odoacro e Orestes, impôs Júlio Nepote como imperador do Ocidente. Não obstante, a falta de pagamento dos soldados provocou a rebelião destas tropas, que elevaram Rômulo II, filho de Orestes, ao trono de Ravenna, capital ocidental desde 402. Dois anos depois, sob a autoridade do imperador oriental, Odoacro depunha Rômulo e proclamava-se rei após enviar as insígnias imperiais para Constantinopla. Este ato simbólico significou o final do principado fundado por Augusto no ano 23 a.C. Nas províncias romanas ocidentais constituíra-se uma instável amálgama de estados bárbaros e a autoridade imperial de Constantinopla era puramente simbólica.
A restauração imperial de Justiniano
O Império do Oriente, que tinha conseguido superar os numerosos perigos que ameaçavam as suas fronteiras e impor a sua autoridade aos recém-constituídos reinos bárbaros do Ocidente, atingiu o seu momento de máximo esplendor político na época de Justiniano I (527-565). Após a sua derrota militar em Calínico (531) para os persas, Justiniano dirigiu os esforços de Bizâncio para a restauração territorial mediterrânea do antigo Império Romano.
O Império Bizantino na época de Justiniano I.
Assegurada a fronteira oriental (assinatura da "Paz perpétua" com Cosroes I), Justiniano empreendeu campanhas militares contra os reinos bárbaros do ocidente mediterrâneo, dirigidas pelos seus generais Belisário e Narsés.
Esta atividade militar exigia um grande esforço econômico que só podia ser mantido com uma dura pressão fiscal, motivo de graves conflitos sociais, como a rebelião de Nika (532), que quase acabou com a vida do imperador e foi duramente reprimida por Belisário. Esta instável situação social era muitas vezes acompanhada de conflitos religiosos entre os seguidores das diferentes doutrinas cristãs, nos quais intervinha diretamente o imperador. O mais grave deles foi o que confrontou ortodoxos e monofisistas, que estabeleciam em Cristo uma única natureza e que tinham sido condenados no IV Concílio da Calcedônia (451).
Dentro do mesmo programa imperial, Justiniano encarregou ao seu conselheiro Triboniano a compilação de todas as leis em um único código (Codex Iustinianeus) que eliminasse as contradições dos anteriores e de uma coletânea de sentenças (Digesto). Os trabalhos da comissão criada para esse efeito deram como resultado o Corpus iuris civilis, que, completado com as Novellae (leis novas), constitui a mais importante fonte de conhecimento do Direito Romano.
O imperador Justiniano encomendou um único código que eliminasse as contradições das versões anteriores. Detalhe do Iustinianum Digestum, cópia medieval do Digesta sive Pandestas Iuris, publicado em 533 (Biblioteca de Veneza, Itália).
Heráclio e a expansão do Islã
Bizâncio não conseguiu fazer frente ao enorme esforço que exigia a manutenção deste grande império territorial e o Estado entrou em crise, atacado em todas as suas fronteiras. A maioria das conquistas justinianas perdeu-se durante os reinados dos seus sucessores imediatos. Em 574, os lombardos instalaram-se na Itália e os territórios bizantinos ficaram reduzidos ao exarcado de Ravenna, Vêneto, Ligúria, Apúlia e Calábria, regiões submetidas a contínuos ataques. A fronteira do Danúbio cedeu perante a pressão de ávaros e eslavos, que se estabeleceram nos Balcãs e chegaram até o mar Egeu. A Oriente, os persas de Cosroes II ocuparam a Síria e parte do Egito, penetrando até ao centro da Ásia Menor.
Esta delicada situação foi superada graças às enérgicas medidas do governador (exarca) da África, Heráclio, que tomou o poder e coroou-se basileus romaion (610-641), título oficial desde então do soberano bizantino. Heráclio conseguiu restaurar o domínio bizantino sobre os Balcãs e derrotar os persas na sua capital (Ctesifonte, 628), pondo fim ao império de Cosroes II.
Não obstante, este enérgico imperador não conseguiu evitar o perigo representado pela expansão do Império Árabe-islâmico, que, aproveitando as guerras entre persas e bizantinos, foi lançado à conquista de ambos os impérios.
A ruptura com o Ocidente
O século e meio compreendido entre a ascensão da dinastia isáuria e a chegada da macedônica (717-802) representou para Bizâncio um longo e complexo período de conflitos e mudanças, marcado pelas lutas entre iconófilos e iconoclastas - ou seja, defensores e critícos do culto às imagens, respectivamente -, no interior, e pela pressão de árabes e búlgaros, no exterior. Ao mesmo tempo, e em consequência do posicionamento iconoclasta do patriarcado de Constantinopla e da debilidade política bizantina, deu-se a ruptura entre as Igrejas ocidental e oriental. O Império se enfraqueceu e as influências dos territórios orientais ganharam peso em detrimento dos ocidentais. O grego, na porção oriental, transformou-se na língua da cultura e da administração, fazendo mais profunda a ruptura com o Ocidente.
A dinastia macedônica, o segundo apogeu de Bizâncio
Basílio I, o Macedônio (867-886), que tinha chegado ao poder após o assassinato do seu mentor, Miguel III, pôs em prática uma política que, em alguns aspectos, fazia lembrar a de Justiniano I. Embora fracassasse na Sicília contra os muçulmanos, conseguiu recuperar a Apúlia, a Calábria e a ilha de Chipre (874). Empreendeu também um grande trabalho jurídico, concretizado na publicação da Epanagoge (879), como introdução ao novo compêndio do Direito Romano (Basílicas), finalizado na época do seu filho Leão VI, e de um manual para juízes. Elaborou também uma ideologia imperial baseada na teoria dos dois poderes, segundo a qual o imperador e o patriarca de Constantinopla deviam repartir o poder temporal e o espiritual, embora em estreita colaboração.
Durante o império de Leão VI (886-912) publicaram-se 113 novellae, que implicaram uma profunda reforma da organização de Bizâncio e da ideologia imperial: o imperador converteu-se em um autocrata, apoiado em uma poderosa máquina burocrática, e assumiu também o poder espiritual (cesaropapismo) além do temportal que já lhe cabia. A teoria legitimista impôs a sucessão hereditária e o cerimonial cortesão tornou-se mais complexo, como convinha a um soberano ungido por Deus. Todo o poder do Império ficou concentrado no sacro palácio de Constantinopla, contíguo à Basílica de Santa Sofia. Não obstante, o esplendor da corte não correspondia à situação militar. Simeão I da Bulgária invadiu a Macedônia e a Trácia e, em 904, ocupou a cidade de Tessalônica, que só pôde ser recuperada com a entrega da Albânia e de parte da Macedônia a Simeão. O reino búlgaro convertia-se em um grande Estado balcânico que constituía uma perigosa ameaça para Bizâncio.
Esta situação mudou durante os governos de dois generais de origem oriental, Nicéforo Focas (963-969) e João Tzimiscés (969-976), que empreenderam campanhas bem-sucedidas contra búlgaros, russos e muçulmanos, conseguindo a recuperação da Cilícia, de Chipre e de alguns enclaves importantes da costa da Síria (Antioquia). Por seu lado, Basílio II (976-1025) conseguiu a aliança dos russos e empreendeu uma duríssima luta contra os búlgaros, que derrotou definitivamente à beira do Struma (1014), pelo que recebeu o cognome de Bulgaróctonos (matador de búlgaros), anexando o seu reino ao Império.
Apesar dos êxitos militares, com a morte de Basílio II, a dinastia declinou rapidamente e o Império afundou em uma nova crise. Os cargos administrativos e os rendimentos que geravam patrimonializaram-se, originaram uma nova aristocracia, senhora das terras, enriquecida pela compra a baixo preço das terras de uma multidão de camponeses empobrecidos, que a estes ficaram submetidos. Do seio desta aristocracia surgiria uma nova dinastia, a comnena, que governou Bizâncio entre 1081 e 1185. Esta fragilidade foi aproveitada por novas potências, que se lançaram contra as fronteiras bizantinas: os normandos conquistaram o sul da Itália; os pechenegues, procedentes das planícies do Turquestão, devastaram a Trácia e os Balcãs; e os turcos seldjúcidas avançaram do Irã para a Ásia Menor, perdida quase na sua totalidade depois da batalha de Mantzikert (1071).
As Cruzadas e o Império Latino do Oriente
A delicada situação em que se encontrava Bizâncio, ameaçado por turcos e normandos, levou Aleixo I (1081-1118) a uma dupla política: por um lado, entregou o monopólio do comércio externo bizantino aos mercadores venezianos (1082) numa tentativa de mitigar as investidas normandas e, por outro, solicitou a ajuda de Roma, que se traduziu na bula de cruzada lançada pelo papa Urbano II no Concílio de Clermont (1095), exortando os cavaleiros ocidentais a lutarem contra os turcos.
O ímpeto dos cavaleiros cristãos não só deteve o avanço dos turcos, como obrigou-os a ficar na defensiva. Contudo, as relações entre cruzados e bizantinos azedaram depressa. Apesar de a maior parte dos cruzados ter jurado vassalagem a Aleixo I, isso não livrou os bizantinos do saque das suas terras e populações, já que muitos cruzados os consideravam hereges desde a ruptura definitiva entre os patriarcas de Roma e de Constantinopla (Cisma do Oriente, 1054), fato que lhes dava direitos sobre as suas vidas e propriedades.
A submissão dos imperadores, conscientes da sua fraqueza, perante os cruzados e a abusiva política mercantil das potências ocidentais (Veneza, Gênova) provocaram um profundo mal-estar entre a população bizantina. A situação tornou-se insustentável após a derrota bizantina em Miriocefalon (1176), que dava aos turcos o domínio da Ásia Menor. Finalmente, um golpe palaciano derrubou os comnenos, que foram substituídos por outra grande família da aristocracia latifundiária, os ângelos (1185-1204), que também não conseguiram mudar o obscuro e caótico panorama político da cidade de Bizâncio. Em 1204, os cruzados apoderaram-se de Constantinopla, que foi submetida a um duro saque. O imperador foi expulso e o nobre Balduíno de Flandres subiu ao trono do recentemente constituído Império Latino do Oriente, separado até 1260 do Império Grego de Niceia, na Ásia Menor, nas mãos dos bizantinos.
O longo ocaso do Império
A fragilidade do Império Romano, envolto em constantes intrigas internas, possibilitou às forças bizantinas de Niceia a reconquista de Constantinopla (1261). Apesar dos esforços de Miguel VIII (1261-1282), o império já se encontrava em um processo de decadência sem solução.
Isolado politicamente e com um território reduzido, Bizâncio teve de recorrer à contratação de mercenários estrangeiros, que se converteram em uma pesada carga para as finanças imperiais. Ao mesmo tempo, ocorreu uma mudança social cuja consequência foi a feudalização. A aristocracia latifundiária competia pelo poder com o imperador, que já não tinha o domínio da administração. Descentralizada, esta estava agora nas mãos dos grandes latifundiários, que tinham transformado em hereditárias as concessões de terras (pronoia), as quais comportavam o exercício dos seus cargos e se encarregavam da defesa do território.
A ofensiva otomana
Em meados do séc. XIV, os turcos otomanos conquistaram os territórios bizantinos da Ásia Menor, cruzaram o Bósforo (1354) e penetraram na Europa. Deixando de lado Constantinopla, avançaram para o norte e, após derrotarem os sérvios na batalha de Kosovo (1389), apoderaram-se do sul dos Balcãs, anexados ao Império Otomano na sua totalidade depois de vencerem os húngaros em Nicópolis (1396). A derrota sofrida em Angora (1402) pelo sultão otomano Bajazeto para os mongóis do khan Tamerlão e a longa guerra civil turca que se seguiu não conseguiram senão adiar a sorte de Bizâncio. Em 1416, uma frota veneziana vencia a turca em Gallipoli. Não obstante, a desunião entre as potências europeias tornou este esforço inútil e quando Mehmet I reunificou o Império Otomano, a conquista de Bizâncio era apenas uma questão de tempo.
O sultão turco Mehmet II, decidido a conquistar o pouco que restava de um império reduzido à capital e às zonas próximas desta, organizou a mais potente força de artilharia da época, cercando a cidade. Constantinopla mal pôde suportar a pressão durante dois meses, e em 29 de maio de 1453, os turcos submeteram-na a um feroz saque que durou três dias. Constantino XI, último dos imperadores de Bizâncio, morreu defendendo a cidade e Mehmet II proclamou-se seu sucessor. A Basílica de Santa Sofia converteu-se em mesquita e o sacro palácio imperial passou a ser a residência do sultão otomano (serralho). Constantinopla tornou-se a nova capital do Império Otomano.
A arte bizantina
O período da história da arte conhecido como arte bizantina abrange desde a fundação de Constantinopla (330) até à sua ocupação pelos turcos (1453).
O âmbito geográfico da arte bizantina estende-se por uma ampla zona que compreende Constantinopla, Itália e os Balcãs até a Rússia e as regiões da Grécia e da Ásia Menor.
As referências culturais
As referências culturais de uma época e de um lugar são muito importantes para entender as formas e os significados da sua arte. Em Bizâncio, estas referências são o resultado da síntese de três grandes correntes: o cristianismo, as tradições orientais e o helenismo tardio.
A arquitetura bizantina
Ao longo dos seus 1.000 anos de existência, a concepção do espaço da arquitetura bizantina, assim como os seus traços principais, manteve-se praticamente inalterada.
Embora houvesse uma arquitetura civil, os edifícios bizantinos encontrados até hoje são templos. Estes manifestam uma concepção espacial herdada da basílica paleocristã, consistente em uma aceleração direcional do edifício desde a porta até o ponto mais importante situado no outro extremo: o altar. Este está enquadrado por uma abside que, geralmente, está coberta por uma abóbada. Assim, o espaço típico cristão manteve-se invariável.
Planta de cruz grega de Os Santos Apóstolos. Nas suas primeiras manifestações, as basílicas tinham planta basilical. Mais tarde, generalizou-se a planta de cruz grega, como a da antiga Igreja dos Santos Apóstolos de Constantinopla, Turquia (536-546).

Contudo, ao contrário das basílicas paleocristãs, o estilo bizantino criava a sensação de amplitude no espaço interno. Esta sensação era obtida por meio de uma tipologia construtiva abobadada que marcou praticamente toda a arquitetura bizantina desde o seu início: uma planta central, geralmente de cruz grega (embora também pudesse ser octogonal), coberta por uma cúpula semi-esférica. A cúpula é suportada por pendentes, uma inovação técnica bizantina. Também os contrafortes e outras cúpulas de descarga contribuem para repartir o peso da cúpula ou abóbada central. É preciso assinalar a tendência para os capitéis em forma de tronco de pirâmide invertida e a existência do cimácio, um corpo superior ao capitel e da sua forma, que contribui para realçar e dar elegância ao arco de meio ponto com que se costuma rematar a parte que sustenta o edifício.
Finalmente, convém assinalar a profusa decoração interna das igrejas, com pinturas e mosaicos que, juntamente com o jogo de luzes e a dilatação do espaço, ajudam a potencializar o caráter sagrado e irreal dos seus interiores.
A função e o simbolismo do templo bizantino
O templo bizantino desempenhava duas funções. Em primeiro lugar, tratava-se de criar um espaço para reunir os cristãos durante a celebração dos seus rituais religiosos.
Em segundo lugar, a arquitetura do templo cumpria importantes funções simbólicas. Os edifícios orientavam-se para leste, direção do sol nascente e onde o pensamento religioso situa o perdido paraíso terrestre.
Além disso, o templo era concebido como um espaço sagrado, um lugar privilegiado que criava na Terra uma suposta imagem do céu. A cúpula central era o símbolo da abóbada celeste, onde habitavam Deus e o seu filho, Jesus Cristo. Deus tinha-se revelado por intermédio dos quatro evangelistas que estavam representados em cada uma das pendentes. Nos ofícios religiosos, o imperador sentava-se justamente no espaço central, debaixo da cúpula, para evidenciar o seu caráter de representante de Deus na Terra.
Perspectiva axonométrica de Santa Sofia de Constantinopla (Istambul, Turquia). Construída no séc. VI, trata-se de uma estrutura basilical com as naves coroadas por tribunas, cuja fachada oriental é precedida por um átrio.

A arte da imagem
A imagem bizantina expressou-se por meio da pintura e do mosaico. A primeira efetuou-se tanto em afrescos como, sobretudo, em ícones (pintura sobre madeira), estilo que se transformou na arte figurativa por excelência. Ao contrário da arte romana, que colocava os mosaicos nos pavimentos, os bizantinos usaram-nos para revestir as paredes e os tetos dos templos. Os dois gêneros estiveram sempre em função da arquitetura, cujo simbolismo acentuava. A escultura não teve tanta relevância e são poucas as obras de interesse que se conservam.
A temática e as formas
As pinturas e os mosaicos bizantinos caracterizaram-se por representar figuras humanas de frente - em uma perspectiva bidimensional -, hieráticas e rígidas. Estas figuras não eram concebidas em um estilo natural. Além disso, o espaço e o volume dos corpos eram completamente anulados pelas roupagens. Apesar da espiritualização das figuras, estas mantiveram uma certa tradição clássica. Os corpos têm um cânone ou uma medida fixa de tradição helênica e as cabeças– especialmente no Pantocrator – inscrevem-se em três círculos concêntricos: o primeiro circunscreve o rosto, o segundo o cabelo e o terceiro a aura ou auréola. Sendo uma imagem exclusivamente religiosa, os temas limitaram-se à representação de Cristo, da Virgem, da vida dos santos e de outros temas bíblicos ou teológicos.
Constantino Monomaco (1042-1054) ou Constantino IX, subiu ao trono pelo casamento com a imperatriz Zoe, filha de Constantino VIII. No mosaico de Santa Sofia, o imperador Constantino Monomaco e a sua esposa Zoe ladeiam Jesus Cristo.
Os significados
Os elementos formais foram o meio pelo do qual o artista bizantino, segundo os ditames da Igreja, tentava prescindir da realidade física para expressar o transcendental. Os corpos não são representados a partir de um modelo real. De fato, são a representação intelectual de verdades teológicas. Geralmente, fugiu-se de todo o didatismo e foi por isso que não se narravam cenas, mas se criavam imagens para manifestar os significados profundos das verdades teológicas. Ao artista bizantino não lhe importavam as desproporções entre personagens se assim conseguia expressar a maior importância de uns em relação aos outros. As atitudes eram estilizadas e antinaturais. Os escassos objetos ou elementos naturais, quando apareciam, não se relacionavam com o cotidiano, mas com a necessidade de significação, sendo por este motivo reduzidos a formas geométricas e estereotipadas.
A herança de Bizâncio
Bizâncio não foi a Roma do Oriente mediterrâneo, como tinha pretendido Constantino, já que no decorrer da sua longa história política criou uma realidade cultural própria, mistura de elementos latinos, gregos e orientais, que influenciaria enormemente o mundo eslavo.
Da sua privilegiada posição geográfica, entre a Ásia e o Mediterrâneo, as cidades bizantinas, em especial Constantinopla, constituíram grandes empórios comerciais de onde exportavam joias, esmaltes, marfins, tapetes e escravos de origem eslava, e importavam seda, açúcar e algodão. A produção de artigos de luxo estava estritamente regulamentada pelos funcionários imperiais, já que traziam grandes benefícios, em forma de impostos, aos cofres do Estado. Os profissionais (artesãos, mercadores, notários, cambistas), além disso, agrupavam-se em rígidas corporações associativas, os grêmios, continuadoras dos antigos collegia romanos.
Os portos bizantinos uniam as rotas pelas quais, através da Ásia Menor e do interior da Ucrânia e da Rússia, pelo mar Negro, chegavam a seda e as especiarias do Extremo Oriente e o âmbar e as peles do Báltico, comercializados em todo o Mediterrâneo e na Europa central por meio das rotas balcânicas. Contudo, a expansão árabe e o aparecimento das potências marítimas italianas (Veneza, Gênova, Amalfi) foram um contratempo para o comércio bizantino. O solidus aureus, a moeda de ouro bizantina, era a moeda por excelência do comércio mediterrâneo. O seu modelo seria imitado pelos escassos Estados que foram capazes de manter um sistema monetário baseado na moeda de ouro.
Miliário de prata de Basílio I, séc. XI (Coleção Jean Vinchon, Paris, França).
Ao mesmo tempo, Bizâncio destacou-se pela abundância e pelo refinamento da sua produção artística, mistura de elementos clássicos e orientais, muitos dos quais passariam à arte da Europa ocidental (românico, Quattrocento italiano) e eslava (Catedral de Novgorod). O esplendor da sua corte estava perfeitamente refletido na suntuosidade do sacro palácio e na imponente igreja de Santa Sofia de Constantinopla (537), mas também na quantidade de igrejas e mosteiros que se estendiam por todo o Império, desde a Armênia até a Itália passando pela Grécia, profusamente decorados com ouro e ricos mosaicos.
A Catedral de Santa Sofia, em Kiev (Ucrânia) data do séc. XI. A sua planta tem a tradicional forma em cruz grega e está coroada com várias cúpulas. A influência da estética bizantina estendeu-se a todos os territórios que professavam uma doutrina religiosa ortodoxa.

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