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Arquitetura racionalista

O contexto histórico: a Europa do início do séc. XX
A palavra racionalismo, compreendida no sentido mais estrito, designa uma corrente arquitetônica que floresceu durante as décadas de 1920 a 1940. Em um sentido mais amplo, pode-se considerar que o racionalismo ou funcionalismo influenciou toda a arquitetura do séc. XX. Após a Primeira Guerra Mundial, grande parte da Europa encontrava-se destruída. A angústia e a crise econômica do pós-guerra, além da divulgação das ideias comunistas propagadas pela Revolução Russa, conformaram um contexto no qual se originou um inovador e utópico movimento, que pretendia que o progresso arquitetônico estivesse a serviço da sociedade: o funcionalismo.
Esse movimento representou uma mudança na arquitetura praticada até então, mais preocupada com a fachada do que com os espaços internos. Essas inovações foram freadas pelo auge do fascismo e o início da Segunda Guerra Mundial.
O desenvolvimento tecnológico
Desde o séc. XIX, a Revolução Industrial tinha posto ao alcance de arquitetos e engenheiros materiais novos que passaram a ser utilizados na construção de fábricas, pavilhões e pontes. No início do séc. XX, esses materiais começavam a estar à disposição de uma arquitetura prática destinada à coletividade. A nova arquitetura tinha de ser formalmente simples para estar ao alcance do maior número possível de usuários. Também se adaptava às necessidades de saúde e higiene que muito preocupavam nessa época: o ar, o sol e a luz. Um dos mais importantes arquitetos racionalistas, Charles-Édouard Jeanneret, mais conhecido como Le Corbusier, se propôs a esquecer os conceitos do passado e começar do nada para que a arquitetura moderna estivesse de acordo com as novas propostas sociais.
Antecedentes do racionalismo
Os primeiros edifícios verdadeiramente modernos surgiram nos EUA no final do séc. XIX. As cidades estadunidenses cresciam vertiginosamente, ao mesmo tempo em que a atividade econômica se tornava mais intensa. A especulação imobiliária privilegiava as construções em altura para melhor aproveitar o espaço.
A escola de Chicago
A utilização de novos materiais permitiu a construção de edifícios mais altos partindo de um esqueleto interno, que substituía a arquitetura tradicional de paredes maciças. Nas primeiras construções da época, a estrutura interna era feita de aço, a fachada de tijolos e blocos de pedra, como até então. Os arquitetos da primeira escola de Chicago utilizavam nas suas construções o sistema de esqueleto ou estrutura, tanto para o interior como para o exterior. Assim foram erguidos os primeiros arranha-céus, com janelas grandes para deixar entrar a luz em uma cidade de ruas estreitas e construções altas.
Louis Henry Sullivan (1856-1924) pertenceu a esta primeira escola de Chicago, que experimentou com os novos materiais, frutos da Segunda Revolução Industrial (aço, concreto) e com um sistema construtivo baseado na estrutura, a fim de criar edifícios funcionais.
A técnica ou a forma: Adolf Loos e o grupo De Stijl
No início do séc. XX começam a aparecer vários movimentos renovadores que pretendiam libertar-se do historicismo. Alguns arquitetos, como o austríaco Adolf Loos (1870-1933), valorizavam a técnica construtiva em face dos acabamentos. Outros arquitetos estavam mais interessados na forma. Eram arquitetos ligados a grupos artísticos de vanguarda, como Theo van Doesburg (1883-1931), membro do grupo neerlandês De Stijl (criado em 1917).
Essa nova geração de arquitetos tinha opiniões muito diversas: a preferência pelos espaços cúbicos, as superfícies lisas, as janelas alinhadas e os elementos estruturais que ficam à vista. A influência que deixaram seria crucial para a próxima geração de arquitetos, a mais importante após a Primeira Guerra Mundial.
Princípios gerais da arquitetura racionalista
O termo racionalismo, usado às vezes como equivalente de funcionalismo, entendido em seu sentido mais estrito, dá nome a uma corrente arquitetônica que se desenvolveu entre as décadas de 1920 e 1940. No entanto, no seu sentido mais amplo, pode-se considerar que o racionalismo ou funcionalismo alimentou toda a arquitetura do séc. XX.
A forma segue a função
Para os racionalistas a forma está subordinada à função e não muda se a função não se alterar. Cada arquiteto tinha um estilo próprio, mas também características comuns, como a simplicidade das formas, o uso de volumes geométricos elementares e a importância da função frente à forma decorativa. Os racionalistas rejeitavam a forma se esta não fosse o resultado de uma função, ou seja, aplicavam o princípio de que "é belo aquilo que é funcional".
O sentido social da arquitetura
O arquiteto racionalista tinha um sentido de dever respeito à sociedade. Os governos progressistas da época apoiaram seus projetos para se desvincularem das anteriores administrações, para as quais a arquitetura era basicamente um símbolo do poder à margem das necessidades coletivas. Passava-se a ter em conta o impacto global dos projetos; relacionando-os a um ambiente natural e urbanístico. O urbanismo, que já se notara durante o Renascimento e no Barroco, modernizava-se aos novos tempos, desta vez para criar condições adequadas de habitação às populações.
Os arquitetos interessavam-se por projetos revolucionários adaptados às novas necessidades sociais, econômicas, culturais e de saneamento. No entanto, a sua aplicação em grande escala foi difícil. A destruição causada pela Primeira Guerra Mundial permitiu que estes projetos fossem colocados em prática e as exposições universais serviram-lhes de vitrine, tornando-os conhecidos. Também deve-se ressaltar a relação entre os projetos arquitetônicos e urbanísticos e o desenho de objetos cotidianos, como integrantes de uma arte em que o indivíduo e o coletivo passavam a ter o mesmo valor.
A escola alemã
Foi na Alemanha que surgiram os primeiros exemplos de arquitetura racionalista ou funcionalista do princípio do séc. XX. O arquiteto alemão Walter Gropius (1883-1969), que encabeçava o movimento pela união entre arte e técnica, fundou em Weimar a escola de desenho Bauhaus. Na arquitetura de Gropius, as plantas dos edifícios são elásticas, aparentemente sem projetos preestablecidos. Nos exteriores, Gropius optava pelas superfícies diáfanas, cobertas de vidro, mas, de acordo com as necessidades do interior do edifício, construía um muro compacto ou um conjunto de janelas largas e transparentes. A eliminação do muro da fachada só foi possível a partir da construção denominada esqueleto interno, uma estrutura metálica que eliminava a função de sustentação de paredes e fachadas.
Gropius projetou a fábrica Fagus (1911), considerado o primeiro edifício racionalista. Trata-se de um edifício de três andares, com pilotis e janelas contínuas (em cortina) inclusive nas esquinas, onde tradicionalmente se colocavam colunas. Foi início das construções acristaladas de esqueleto interno.
O edifício Bauhaus
O edifício Bauhaus foi construído por Walter Gropius entre 1925 e 1926 em Dessau para abrigar a Escola de Desenho, Arquitetura e Indústria que tinha sido fundada em 1919 em Weimar. Destruído durante a Segunda Guerra Mundial, só foi reconstruído em 1994 e atualmente abriga a Fundação Bauhaus Dessau. De planta livre, composta de três braços ou blocos que se cruzam em forma de hélice, foi projetado para refletir o caráter interdisciplinar da escola e estabelecer as suas distintas funções.
Com a estrutura de esqueleto interno, Gropius libertou a fachada da sua exclusiva função de sustentar os ângulos, substituindo-a por janelas de cortina, o que permitia a entrada de mais luz natural do que na arquitetura tradicional. Cada edifício tinha três andares, e as formas arquitetônicas eram mais puras, sem decorações.
Com esta escola de desenho, seus membros pretendiam aplicar, na prática, a ideia de servir a sociedade, fomentando a criação de todo tipo de objetos e a construção de edifícios que se ajustassem às necessidades do indivíduo e da comunidade. A função social da Bauhaus foi reprimida pelo avanço do fascismo alemão. O governo nacionalista de Hitler fechou-a em 1933 e mandou para o exílio muitos dos seus componentes.
Os materiais como elementos expressivos: Mies van der Rohe
O arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) conheceu alguns dos membros do grupo De Stijl, como Theo van Doesburg e Piet Mondrian, e esta relação o influenciou talvez na busca por espaços fluidos, abertos e simples. Sua obra, no entanto, se iniciou na Alemanha, e por isso é incluído na escola alemã.
Mies van der Rohe foi nomeado diretor da Bauhaus em Dessau em 1930. Três anos mais tarde, o governo nazista fechou a Bauhaus e forçou-o a exilar-se nos EUA, onde fundou a New Bauhaus, que até certo ponto foi projetada como a continuação da primeira. A sua influência foi tão marcante que se deve a ele a fundação dessa segunda escola em Chicago. Uma das suas inovações mais importantes reside na utilização de materiais arquitetônicos novos como elementos expressivos: Van der Rohe usou a pedra, o metal, o vidro e o tijolo. Foi quem aperfeiçoou a arquitetura de esqueleto interno ou a construção que se chamou pele e ossos: os edifícios eram construídos a partir de um esqueleto de ferro e concreto, enquanto o vidro era utilizado como a pele ou embalagem dessa pesada estrutura interna. Aplicou esse princípio, essencialmente, à construção de arranha-céus, sobretudo nos EUA; na Europa projetou a pavilhão para a 1ª Exposição Internacional de Barcelona de 1929, um edifício de pequenas dimensões, concebido a partir de linhas retas e volumes simples e cubistas. Sua obra mais conhecida se desenvolveu durante seu exílio nos EUA, onde projetou vários arranha-céus, entre os quais se destaca o Seagram Building de Nova Iorque (1954-1958). Os arranha-céus se converteram em um símbolo de modernidade e, a partir da década de 1950, também foram construídos em outras cidades do mundo.
A escola francesa
Na França, o arquiteto de origem suíça Charles-Édouard Jeanneret, Le Corbusier contribuiu bastante com elementos inovadores para a arquitetura moderna. Le Corbusier, como Gropius, partia do cubismo na sua tentativa de reduzir a arquitetura a formas geométricas simples, mas de grande riqueza. Uma das primeiras e mais importantes obras foi a Ville Savoie, perto de Paris (1929). Tratava-se de uma casa para uma só família em que o espaço destinado para habitação foi pensado para se conseguir o máximo conforto possível, não possuindo elemento algum que não estivesse projetado para atender a essa ideia.
A Carta de Atenas
Le Corbusier foi um dos fundadores do Comitê Internacional para a Resolução dos Problemas da Arquitetura Contemporânea (CIRPAC), associação internacional de arquitetos progressistas. A CIRPAC redigiu em 1932 a Carta de Atenas, um dos manifestos fundamentais do urbanismo moderno, que incorporava ideias básicas que ainda são seguidas. Nessa carta denunciava-se o caos urbanístico como consequência da era industrial e da explosão demográfica, e chegava-se a um consenso para reformulá-lo. No entanto, a Segunda Guerra Mundial impediu essas tentativas de melhoramento. Quando terminou a guerra, Le Corbusier abandonou a arquitetura geométrica das suas primeiras obras e dedicou-se a uma arquitetura de essência orgânica, com formas bastante fluidas e curvas.
A influência do racionalismo na arquitetura brasileira
O primeiro divulgador desses novos horizontes no Brasil foi o arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik.
Quando as novas ideias finalmente triunfaram, iniciou-se o período denominado heroico da arquitetura brasileira, em que se revelaram personalidades como Afonso Eduardo Reidy, Luís Nunes, os irmãos Marcelo, Milton e Maurício Roberto e Rino Levi.
Uma das contribuições mais interessantes desse período, que mais tarde se incorporou à arquitetura brasileira, foi a redescoberta do bloco de cimento vazado, usado comumente cheio de argamassa para alvenaria e que a equipe de Luís Nunes passou a empregar em sua aparência natural, como simples e prático quebra-sol (mais tarde conhecido como combogó ou cobogó).
Na década de 1940, novos nomes enriqueceram o cenário arquitetônico brasileiro, como Henrique Mindlin, Atílio Correia Lima, Vilanova Artigas, Paulo Antunes Ribeiro, Ari Garcia Rosa, Hélio Uchoa e Aldari Toledo.
Uma série de obras de alto significado consagrou seus autores e chamou a atenção do mundo para a arquitetura que se fazia no Brasil: o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, de Oscar Niemeyer; o pavilhão da Feira Internacional de Nova Iorque, de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer; já na década de 1950, o conjunto de edifícios do parque Guinle, no Rio de Janeiro, de Lúcio Costa; o monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, de Marcos Konder Neto e Hélio Ribas Marinho.
Racionalismo orgânico
Paralelamente ao funcionalismo, desenvolveu-se o organicismo, uma corrente que partia da anterior mas introduzindo formas curvas, mais aproximadas às formas da natureza, com a finalidade de integrar a arquitetura com o seu ambiente natural. Um dos seus mentores foi Frank Lloyd Wright (1867-1959), discípulo de Sullivan. A sua obra centrou-se em projetos de residências unifamiliares das quais se destaca a Casa da Cascata (1935). Também foi autor do projeto do Museu Guggenheim de Nova Iorque (1959).
Na Casa da Cascata, Lloyd Wright dispôs a residência em vários níveis sobre uma rocha, junto a uma cascata natural. Utilizou materiais naturais (pedra, ladrilho, madeira) para manter a harmonia com a natureza existente ao redor. Os níveis habitáveis da casa têm um caráter aberto e ilimitado, como acontece no Museu Guggenheim, edifício que se pode percorrer, por meio de uma rampa helicoidal, sem que se encontre nenhum obstáculo.
O racionalismo na segunda metade do séc. XX
Após a Segunda Guerra Mundial, muitos dos arquitetos da primeira geração racionalista de artistas "entre as duas guerras", como Mies van der Rohe e Le Corbusier, continuaram a trabalhar, dedicando-se sobretudo à remodelação de cidades históricas. Para as novas gerações de arquitetos, a relação entre a estrutura social e o planejamento urbano continuou a ser de extrema importância. A estrutura econômica, com um setor terciário em ascensão e o crescimento das suas atividades, suscitou novas necessidades no tecido urbano. Nas grandes cidades, as carências só poderiam ser resolvidas por meio da construção de edifícios maiores e mais altos, com plantas em que as superfícies podiam subdividir-se de acordo com estas. Os arranha-céus tornaram-se o símbolo de poder das empresas do setor terciário (administração, comércio, hotéis, centros de lazer e de negócios, etc.).
Na Europa, destaca-se a contribuição do arquiteto italiano Luigi Nervi (1891-1979). Das suas obras, a mais relevante é a sede da Unesco em Paris. Só em alguns casos, os arquitetos puderam reinventar a cidade, como em Brasília, capital federal do Brasil, onde se construiu uma cidade inteiramente concebida por um projeto de Lúcio Costa (1902-1998) e Oscar Niemeyer (1907), em 1956. Esses arquitetos conceberam o seu ideal de cidade com uma estrutura lógica, organizada e utopicamente igualitária.
Palácio Itamaraty (1962), sede do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, projetado por Oscar Niemeyer em Brasília, cidade para a qual projetou todos os edifícios públicos, nos quais combinou as estruturas nuas com um leve toque simbólico.
A revolução na técnica arquitetônica consistiu no uso de peças pré-fabricadas de concreto, que permitiram maior rapidez na construção, ainda que alguns arquitetos, com o finlandês Alvar Aalto (1898-1976), preferiam os materiais tradiconais por serem mais respeitosos com o ambiente e com a singularidade cultural e o clima das cidades nórdicas. Aalto combinou as formas retas às formas mais curvas do organicismo em um grande número de edifícios cívicos, como o sanatório de Paimio.
O racionalismo de vanguarda
Na terceira geração de arquitetos do séc. XX destaca-se o dinamarquês Jrn Utzon (1918), discípulo de Alvar Aalto, com uma obra que tentava superar o racionalismo: o edifício da Ópera de Sydney (1956). Essa obra combina o uso racional do espaço interior, destinado a ser um teatro de ópera, sala de concertos e restaurante, com elementos do simbolismo estético mas sem um exterior funcional, que se assemelha a velas brancas de um "candelabro" gigante na baía. Na atualidade, o racionalismo continua a ser uma referência no mundo da construção.

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