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Expressionismo

A origem do termo
Na história da arte, o termo expressionista utiliza-se, em sentido amplo, para classificar a obra dos artistas plásticos que deformam linhas, formas e cores usuais com a finalidade de manifestar ou enfatizar realidades que não são ópticas, como ideias, crenças ou sentimentos, no sentido de dar maior expressão à imagem. A pintura românica (sécs. XI e XII), por exemplo, seria neste sentido expressionista, dado que altera ou exagera o desenho com a intenção de comunicar realidades espirituais ou extramateriais. A intensidade expressiva criada por meio da alteração cromática ou do desenho pode-se encontrar também na obra de muitos outros artistas de diversas épocas, como na de Matthias Grünewald (1470-1528), na de El Greco (1541-1614) e na de Francisco de Goya (1746-1828).
No início do séc. XX, o termo expressionista foi utilizado para referir-se a pintores franceses, em especial os fauvistas, cuja estética se distinguia pelo uso arbitrário da cor. Foi divulgado pelo diretor da Revista Der Sturm em 1910 e, mais adiante, os alemães utilizaram a palavra expressionismus para designar o novo movimento. Recorrendo-se ao seu sinônimo em língua alemã, ausdruckskunst, compreende-se melhor a natureza do que seria a estética expressionista, já que o verbo ausdrücken, além de "expressar" significa "espremer" e "retorcer".
Mas foi só em 1912 que se designou com este termo o movimento artístico nascido na Alemanha, a partir da exposição Sonderbund, apresentada em Colônia. No seu catálogo, descreveu-se o Expressionismo como um movimento que procurava a simplificação e o realce das formas de expressão por meio de novos ritmos e cores. A partir da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o termo Expressionismo já designava o movimento estético iniciado em 1905 com a obra do grupo Die Brücke. Atualmente, considera-se que o Expressionismo teve uma primeira geração na última década do séc. XIX, uma segunda geração que tinha já consciência do seu estilo que floresceu entre 1905 e a Primeira Guerra Mundial, e uma terceira geração surgida no período entreguerras. O movimento teve um impacto repentino no seu desenvolvimento, em 1933, com a ascensão ao poder do partido nacional-socialista de Adolf Hitler, que considerou o Expressionismo uma manifestação da "arte degenerada", proibindo-o e perseguindo os seus artistas, a maior parte dos quais teve de se exilar.
Uma corrente de vanguarda
O Expressionismo, como corrente artística de vanguarda, desenvolveu-se principalmente na área germânica e setentrional da Europa desde o final do séc. XIX até 1933 e caracterizou-se, essencialmente, pela procura de um modo de manifestar o mundo interior do artista e deixar à margem a preocupação de representar a realidade externa tal como esta é percebida. Os artistas plásticos expressionistas tentaram representar as suas experiências emocionais da forma mais completa e veemente possível. A sua obra foi de natureza rebelde em relação ao gosto e à sociedade do seu tempo. A estética expressionista, não obstante, não pode ser considerada uma escola no sentido estrito do termo. Foi, sobretudo, uma sensibilidade geral e um estado de espírito que se manifestou não só por meio da pintura, mas de quase todos os meios expressivos.
O contexto histórico
As formas e os significados do Expressionismo nasceram de uma dupla conjunção histórica: por um lado, a tradição romântica alemã, o pensamento vitalista de Friedrich W. Nietzsche (1844-1900) e a crise cultural sobre o método do conhecimento; e, por outro, a segunda fase da industrialização que estava transformando a sociedade alemã. A tudo isso devem se somar circunstâncias históricas de primeira grandeza: a Primeira Guerra Mundial e as crises econômicas e sociais que ela gerou.
Do Romantismo ao pensamento vitalista
Ao longo do séc. XIX, o Romantismo tinha proposto a primazia da paixão, da emoção e do sentimento como caminho para o conhecimento da realidade e como forma de expressão da sensibilidade. Não obstante, os expressionistas distinguiram-se dos românticos, fundamentalmente, em um aspecto: enquanto o artista romântico tinha se alinhado com as transformações que a sociedade burguesa revolucionária tinha promovido na sua luta para destronar o mundo aristocrático-feudal, o artista expressionista detestava o conservadorismo burguês dominante na sociedade, tanto quanto seu gosto artístico e seu otimismo, e nas suas manifestações artísticas não lhe poupou nem a caricatura nem o sarcasmo. Neste sentido, o pintor expressionista sentiu-se marginalizado pela sociedade do seu tempo e até certo ponto era visto como maldito aos olhos das classes dirigentes. Vale ressaltar que o movimento romântico antecede o expressionista em quase um século.
No último terço do séc. XIX, já consagrado o triunfo dos herdeiros do Iluminismo, considerou-se também a "morte de Deus", que foi magistralmente exposta na obra de Nietzsche. Com extrema lucidez, o filósofo alemão denunciava a substituição dos mitos da sua época: para ele não se devia preencher o vazio de Deus com a idolatria ao Estado, nem se tinha de suprir a fé na onisciência divina com uma confiança cega na ciência. Tampouco se tinha de substituir a fé religiosa pela crença na infalibilidade da razão, nem a certeza de uma providência divina sobre os destinos humanos pela credulidade no progresso indefinido. Muito pelo contrário, era preciso assumir totalmente que as pessoas devem viver vitalmente, ou seja, seguindo o ditado da sua paixão e do seu instinto, porque, morto Deus, o horizonte estava aberto a todas as audácias do conhecimento. Nietzsche convidava a humanidade a aceitar a morte de Deus como uma libertação e a viver a vida com intensidade. A vida devia ser assumida na sua totalidade, tanto no bem quanto no mal, no prazer e na dor. O fato importante, definitivamente, era a vontade, o "eu quero". Contudo, a lucidez do pensamento nietzschiano desencadeou também uma sensação de vazio, de insegurança e de desorientação, enchendo as almas de uma angústia que aparece quase como uma constante no significado das obras dos pintores expressionistas.
A crise do conhecimento
Antes de 1914, a maior parte da sociedade confiava nos progressos da ciência e na força da razão e do senso comum. As classes dirigentes não dissimulavam o seu otimismo, e a Europa exercia a sua hegemonia cultural e econômica sobre o mundo e acreditava possuir um grau de civilização superior que legitimava a ocupação colonial. Apesar do ambiente de otimismo burguês, no mundo da cultura já se manifestavam graves sintomas de crise. Ao longo do séc. XIX, o pensamento seguia o método da ciência física como modelo. A isso se chamou positivismo: apenas o observável e mensurável era objeto razoável do conhecimento. Esta atitude fazia com que se considerasse o exterior, os dados da percepção como a coisa mais importante. A arte da imagem no séc. XIX – Realismo e Impressionismo – foi um claro reflexo desta atitude, dado que os artistas procuravam esteticamente a representação realista dos dados exteriores como eram percebidos pelos sentidos.
Esta atitude começou a mudar com o novo século, quando Max Planck (1858-1947) acabou com a ideia da continuidade na energia (física quântica), Albert Einstein (1879-1955) demonstrou que o tempo e o espaço não eram absolutos (teoria da relatividade), e Joseph Thomson (1856-1940), Ernest Rutherford (1871-1937) e Niels Bohr (1885-1962), com o descobrimento do elétron e da estrutura atômica, demonstraram que a matéria era algo muito mais complexo do que se pensava até então. Na área centro-europeia estas mudanças conduziram muitos filósofos a postular que a vida, o único tema importante da reflexão filosófica, não podia ser pensada a partir dos procedimentos da física e da matemática. As chamadas ciências do espírito tinham o seu próprio método, que, como na fenomenologia do filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), encontrava-se no interior da consciência.
No campo da teoria da arte, esta mudança de perspectiva traduziu-se em uma nova concepção do ato de criar. Assim, para o influente historiador da arte Wilhelm Worringer (1881-1965), a criação seria o resultado de um impulso interior que manifestaria ou comunicaria os valores espirituais ou os estados psicológicos do artista. O Expressionismo foi uma manifestação na arte desta atitude filosófica: não interessava representar a realidade, mas expressar o sentimento que esta realidade provocava no artista. O Expressionismo expunha uma tensão entre o desgosto causado pelo mundo e uma paixão extrema pela vida, que pretendia decifrá-la, descobrir a sua verdade oculta.
Industrialização, guerra e pós-guerra
A Alemanha, a pátria do Expressionismo, tinha se unificado em 1870 e, sob a direção do primeiro-ministro da Prússia, Otto von Bismarck, tinha se industrializado aceleradamente, ao mesmo tempo que os valores militares e o autoritarismo impregnavam a educação e a vida pública. A superpopulação, o rápido crescimento das cidades, a expansão da indústria pesada, o militarismo e a rígida estrutura social foram questões que os expressionistas alemães criticaram com firmeza. A Primeira Guerra Mundial confirmou os seus temores e o seu horror perante a capacidade destrutiva da indústria posta a serviço do conflito bélico. Se a guerra foi uma atroz experiência, o pós-guerra, com as suas crises econômicas, a instabilidade política da República de Weimar (1919-1933) e as fracassadas tentativas revolucionárias, constituiu o cenário definitivo da nova sensibilidade expressionista.
Estas crises culminaram com a chegada ao poder do nacional-socialismo, ao qual quase todos os artistas expressionistas se mostraram contrários. A ascensão ao poder do nacional-socialismo de Adolf Hitler provocou uma dissolução do movimento expressionista, ainda que o seu impacto na estética do séc. XX continuasse em outros contextos culturais após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Características gerais do Expressionismo
Embora cada grupo – e mesmo cada artista – expressionista possuísse características próprias, é possível assinalar algumas constantes estéticas deste movimento.
A arte do não visível
Em primeiro lugar, é preciso destacar uma atitude geral de desconfiança perante a natureza. Desde o Renascimento, a arte vinha constituindo a reprodução mais ou menos idealizada da natureza das coisas a partir de leis racionais da perspectiva e do uso da cor. O artista expressionista duvidava da verdade da natureza, dado que para ele, em consequência do capitalismo, já não havia natureza, mas caricaturas e máscaras da realidade, assim como tomavam consciência de que a realidade poderia ser entendida de várias formas. A natureza passou a ser o objeto sobre o qual atuava a subjetividade do artista – o artista expressionista procurava retratar uma visão da realidade que fosse além do que esta parecia ser, com a intenção de desmascará-la em uma clara atitude de denúncia, ou com a finalidade de ter acesso ao seu interior, ao seu lado sutil e invisível. A arte dos expressionistas coincidiu assim com o pensamento antipositivista que também reivindicava um olhar sobre a realidade do interior da consciência da pessoa. O pintor suíço Paul Klee (1879-1940) chegou a dizer que a arte não expressa o que é visível, mas faz visível aquilo que se esconde na confusa multiplicidade dos estímulos externos. A arte, pois, não derivava de uma habilidade do artista, mas da necessidade de expressar a sua alma, postulado que conduziu uma grande parte dos expressionistas para a abstração, como foi o caso de Vassili Kandinski (1866-1944). A arte devia criar a realidade, e não tentar imitá-la.
Um sentido ético e estético
O Expressionismo caracterizou-se também pela primazia da visão do artista sobre a observação, pela prioridade da intuição sobre a racionalidade e por atribuir ao ato criativo um sentido de denúncia quase militante. O artista expressionista considerava que os meios expressivos são autônomos em relação à realidade que se quer representar, e que a obra devia refletir não só uma atitude estética, mas também ética perante a realidade da Alemanha do seu tempo. Embora a sua linguagem expressiva tivesse relações evidentes na forma com outros movimentos artísticos vanguardistas, os expressionistas sentiam-se no extremo oposto ao do Impressionismo, que consideravam ligeiro e superficial; do Cubismo, por ser demasiado intelectual e frio; e do Futurismo italiano, pelo seu nacionalismo e o seu culto da tecnologia e da novidade industrial.
Um sentimento trágico da vida
O Expressionismo era, geralmente, pessimista, espiritual e subjetivo. Os artistas quase sempre viam a vida com um sentimento trágico e na sua obra expunham os seus sentimentos por meio de um desenho de traços inquietantes, rostos caricaturais e personagens marcadas pela tragédia pessoal ou pela marginalização social. Quase sempre deformavam a anatomia com a finalidade de traduzir na plástica um efeito de intensidade psíquica, e utilizavam as cores de maneira arbitrária para produzir um impacto emocional no espectador.
Os precedentes
Os precedentes pictóricos mais imediatos da estética expressionista encontram-se nas obras de Paul Gauguin (1848-1903) e Vincent Van Gogh (1853-1890), influenciados ambos pelo Impressionismo. Mas as suas obras derivaram para uma tradução não do que o olho vê, mas do que a mente pensa, ou, melhor ainda, do que a alma sente.
Gauguin, que rejeitava a sociedade e o pensamento cristão ocidental, procurou sem sucesso, na Bretanha francesa e nas ilhas Marquesas formas de vida mais em harmonia com a natureza, e expressou a sua ousadia interior pelo uso arbitrário da cor.
Van Gogh também expressou o seu martírio interior e os seus desvarios psíquicos por meio da cor, e, nas suas últimas obras, distorceu o desenho. Sentindo-se só e com uma intensa consciência da inutilidade social do artista, encontrou nas suas telas, como ele mesmo confessou, o único interlocutor do seu drama pessoal. Ambos os artistas abriram caminho para os expressionistas ao utilizar linhas e cores para exprimir o seu sentir mais profundo do modo mais intenso possível.
A primeira geração expressionista
Na área cultural nórdica e germânica, três pintores, paralelamente a Gauguin e Van Gogh, tiveram experiências similares: o norueguês Edvard Munch (1863-1944), o belga James Ensor (1860-1949) e o alemão Emil Nolde (1867-1956). Todos eles levaram vidas solitárias, sentiram-se estranhos nos seus ambientes sociais e associaram-se ao pensamento de filósofos e escritores vitalistas ou existencialistas, como o próprio Nietzsche e Sören Kierkegaard (1813-1855). São os artistas da primeira geração expressionista:
Edvard Munch
Edvard Munch é considerado o fundador do movimento e foi o pintor que mais influenciou na estética do Expressionismo. Enraizada no Modernismo, a pintura de Munch, sempre inquietante e perturbadora, empregava cores uniformes e puras juntamente com as linhas ondulantes e as diagonais para representar estados de espírito intensamente inquietantes e mesmo mórbidos, ou para lançar sobre a tela a visão pessimista do artista sobre a vida. A morte, a dor, a falta de comunicação e a oposição dramática dos sexos são os seus temas habituais. O Grito (1893) é a sua obra mais representativa.
James Ensor
James Ensor, a partir de 1883, começou a representar na sua obra temas desconcertantes, substituindo os rostos humanos por máscaras grotescas. O seu tema constante foi a vida entendida como um carnaval tragicômico em que os seres humanos, ocultos atrás de máscaras inquietantes, dedicam-se a magoar uns aos outros. A Morte e as Máscaras (1897), obra em que apenas a morte leva o rosto descoberto, expressa por meio da sua exaltação colorida toda a tragédia da sua concepção vital.
Emil Nolde
Emil Nolde, pintor profundamente religioso e atormentado pela dúvida, foi um dos primeiros membros do Partido Nazista, fato que não impediu que fosse considerado pelos próprios nazistas como um artista degenerado. Embora a maioria dos seus quadros represente temas paisagísticos, Nolde é mais conhecido pelas suas obras de tema religioso, como o políptico de nove peças intitulado A Vida de Cristo (1912), em que as cores primárias sem nuances provocam um efeito de máscara nos temas sagrados representados. Nolde produziu notáveis litografias e gravuras violentamente contrastadas em preto e branco. O conhecimento desta parte da sua obra foi o que induziu o primeiro grupo de pintores conscientemente expressionistas, Die Brücke, a convidá-lo a juntar-se a eles, em 1906. Mas Nolde permaneceu apenas um ano no grupo.
A segunda geração expressionista
A segunda geração expressionista surgiu na Alemanha a partir de dois núcleos que, apesar de partilharem a mesma estética (esquematismo do desenho, cores fortes e violentas), diferenciavam-se na sua disposição. Estes são o grupo Die Brücke (A Ponte), nascido em Dresden, em 1905, e liderado por Ernst Ludwig Kirchner, e o grupo Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), formado em Munique, em 1911, em torno de Vassili Kandinski e Franz Marc.
Die Brücke
Die Brücke era constituído por quatro estudantes de arquitetura de Dresden, Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938), Erich Heckel (1883-1970), Karl Schmidt-Rottluff (1884-1976) e Fritz Bleyl (1880-1966), que alugaram, em um bairro proletário, um ateliê coletivo de pintura, escultura e gravura, e aos quais se uniram Max Pechstein (1881-1955), em 1906; e Otto Müller (1874-1930), em 1911. Escolheram o seu nome inspirando-se no prólogo da obra de Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, que dizia que "o que há de grande no homem é que é uma ponte e não um fim. O que pode ser amado num homem é que é uma transição e um declive". Com este nome também manifestavam uma característica principal da sua atitude vital: o espírito de rebeldia contra a arte e a sociedade estabelecidas, a vontade de viver intensamente e em liberdade. Pretendiam oferecer-se como ponte em dois sentidos: consideravam o seu grupo como via de união de todos os elementos agitadores e revolucionários e pretendiam realizar uma obra que havia de ser a ponte para o futuro. As suas intenções estéticas, por outro lado, eram confusas: fiéis à tradição artesanal, eram contrários às técnicas modernas de impressão e trabalharam a gravura em madeira. A sua linguagem formal tinha indubitáveis influências de Van Gogh, por quem sentiam autêntica devoção, do Cubismo e do Fauvismo. Geralmente, caracterizaram-se por uma técnica rudimentar sem renunciar nunca ao realismo, dado que nas suas obras sempre se podia reconhecer o tema, mas figuras, paisagens e retratos apareciam com traços distorcidos e um colorido extremamente dissonante. Em 1911, o grupo mudou-se para Berlim e dois anos depois se dissolveu devido a desavenças internas.
Der Blaue Reiter
Der Blaue Reiter foi fundado em 1911 e o seu nome tem origem no título de um quadro de Kandinski, que também designou um almanaque preparado pelo próprio Kandinski e por Franz Marc (1880-1916). Outros membros destacados do grupo foram o suíço Paul Klee e o alemão August Macke (1887-1914), e o vínculo que os uniu foi o desejo geral de expressar simbolicamente na sua obra as realidades espirituais. As suas contribuições mais interessantes foram a consistência teórica do movimento e o fato de ter conduzido a sensibilidade expressionista para os caminhos da abstração. Na fase final de sua evolução, alguns artistas do grupo postularam que a forma e a cor tinham de corresponder diretamente ao ânimo do espectador, da mesma maneira que a música faz com os sons. Acentuaram também o seu interesse por integrar todas as artes, especialmente a música, com a pintura e a poesia. No almanaque de 1912, por exemplo, apareceriam artigos sobre música assinados por músicos como Arnold Schoenberg (1874-1951), que também pintava, e pelo próprio Klee, que tinha sido violinista. A eclosão da Primeira Guerra Mundial, na qual alguns pintores encontraram a morte, dissolveu o grupo. Obras significativas dos pintores desta tendência são Cavalos Vermelhos e A Vaca Jovem, ambas de 1911, de Franz Marc, Com o Arco Negro (1912), de Kandinski, e Arquitetura Espacial (1915), de Paul Klee.
Outros artistas de sensibilidade expressionista
Embora não estivessem associados a nenhum movimento em especial, houve artistas contemporâneos que partilhavam a sensibilidade expressionista, como os pintores vienenses Oskar Kokoschka (1886-1980) e Egon Schiele (1890-1918). O primeiro, procedente do Modernismo, tentava descrever a vida interior dos modelos e a sua tendência expressionista é evidente em A Noiva e o Vento (1914), no qual se percebe ainda a herança do Romantismo. O segundo distinguiu-se pela provocação a que submeteu a alta sociedade vienense pelo erotismo cru das suas obras.
Fora da Alemanha o Expressionismo influenciou, sobretudo, artistas que viviam na França, como Chaïm Soutine (1893-1943), Marc Chagall (1887-1985), Amedeo Modigliani (1884-1920) e o Picasso (1881-1973) pós-cubista.
No Brasil, os pintores Cândido Portinari (1903-1962), Anita Malfatti (1896-1964), Lasar Segall (1890-1957) e o gravador e desenhista Osvaldo Goeldi (1895-1961) podem ser considerados imersos na sensibilidade expressionista.
A terceira geração expressionista
O Expressionismo alemão posterior à Primeira Guerra Mundial refletiu claramente na sua radicalização as crises subsequentes. A crise política, a repressão das revoluções de 1919, a inflação de 1923, a crise econômica de 1929 e a divisão da sociedade que conduziu ao triunfo do nazismo ficaram refletidas na pintura dos expressionistas. A sua estética voltou ao Realismo despiedado de Die Brücke, acentuando a sua forma agressiva e contrária ao idealismo.
Neue Sachlichkeit
Esta terceira tendência do Expressionismo tomou o nome da exposição que se realizou, em 1924, em Mannheim: Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade). Os expoentes máximos deste movimento foram George Grosz (1893-1959), Otto Dix (1891-1969) e Max Beckmann (1884-1950).
Otto Dix centrou a sua cruel crítica na realidade atroz da guerra e nas suas consequências sociais. O desenho disforme e a coloração ácida das suas telas acentuavam a sua reprovação dirigida contra a injustiça social alemã e a frivolidade da sua burguesia. Exemplo disso é o seu tríptico Os Noctâmbulos ou A Grande Cidade (1927-1928), em que uma burguesia frivolamente inconsciente dança ao som de uma orquestra de jazz (painel central), enquanto antigos combatentes mutilados (esquerda) e excluídos (direita) subsistem na rua sem receber nenhuma atenção.
George Grosz, utilizando os recursos do Cubismo, levou a crítica aos militares e aos grandes capitalistas.
Max Beckmann tratou o problema do horror de um ponto de vista mais intelectual, ao que não foi alheia a forma alongada e quase gótica das suas figuras e a multiplicidade de pontos de vista. Obras como A Noite (1919) atacavam diretamente e sem concessões a sensibilidade do espectador, expressando plasticamente o terror e a brutalidade que dominou Berlim imediatamente depois da Primeira Guerra Mundial. Quando representava cenas aparentemente mais amenas, como A Dança de Baden-Baden (1923), as cores luminosas falseavam o tema de fundo: o vazio, a frustração sexual, a solidão e a indiferença nas relações humanas.
O Expressionismo abstrato
Em 1933, o Expressionismo foi abolido na Alemanha pelo Estado nazista, mas a sua estética encontra-se em numerosas manifestações plásticas do séc. XX, particularmente nas correntes abstratas que apareceram tanto na Europa quanto nos EUA depois da Segunda Guerra Mundial e que receberam o qualificativo de Expressionismo abstrato. Jackson Pollock (1912-1956), Arshile Gorky (1904-1948) e Mark Rothko (1903-1970), entre outros, postularam, a partir da década de 1950, um espírito de rebelião contra os estilos tradicionais e uma vigorosa exigência de liberdade de expressão e de espontaneidade.
O Expressionismo em outros campos artísticos
O Expressionismo alcançou a sua mais alta expressão nas artes plásticas, mas nem por isso a sua influência deixou de refletir-se na literatura, no cinema, no teatro e na música. A sua temática é sempre a visão apocalíptica e pessimista de uma sociedade do pós-guerra, marcada pela inflação, pelo desemprego e pela fome.
Na poesia destacaram-se, entre muitos outros, os austríacos Georg Trakl (1887-1914) e Franz Werfel (1890-1945); na prosa, o tcheco Franz Kafka (1883-1924); na música, os austríacos Arnold Schoenberg (1874-1951), Anton von Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935); no cinema, o russo Serguei Eisenstein (1898-1948) e o estadunidense Eric von Stroheim (1895-1957); e no teatro, o austríaco Max Reinhardt (1873-1943), o sueco August Strindberg (1849-1912) e os alemães Frank Wedekind (1864-1918), Georg Büchner (1813-1837) e Georg Kaiser (1878-1945).

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