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As cruzadas

Origem e causas
As cruzadas foram uma série de expedições militares dirigidas pelos cristãos contra os muçulmanos do Mediterrâneo oriental, com a finalidade de conquistar e liberar a Terra Santa, onde se encontravam os lugares santos, cenário da vida e da paixão de Jesus Cristo. Desde o séc. XI, o papado e os diferentes reis cristãos tinham impulsionado a recuperação dos territórios do antigo Império Romano que se encontravam sob o controle do Islã.
Rotas das cruzadas. As cruzadas medievais, inscrevem-se na expansão do Ocidente cristão a partir do séc. XI.
As causas que fizeram com que os cristãos se dirigissem à Palestina para recuperar os lugares santos foram várias: por um lado, o incentivo da Igreja às peregrinações aos lugares santos do cristianismo e a proteção dos peregrinos; por outro, a necessidade de dar vazão às ambições dos membros menores da nobreza feudal, que ficavam excluídos da maior parte do patrimônio familiar. Um terceiro motivo acrescentava-se aos anteriores: o crescimento econômico que vivia a Europa ocidental desde as primeiras décadas do séc. XI, que tornou possível a abertura da economia europeia ao grande comércio mediterrâneo. As cidades comerciais italianas (Pisa, Amalfi, Veneza), interessadas em neutralizar os seus competidores muçulmanos, promoveram as cruzadas para assegurarem o controle do comércio com o Oriente.
Além disso, a expansão dos turcos seljúcidas na política internacional pôs em perigo o equilíbrio no Mediterrâneo oriental. Os turcos seljúcidas, que tinham derrotado as forças bizantinas da Ásia Menor (Mantzikert, 1071), conseguiram ocupar a Ásia bizantina e lançaram-se contra Jerusalém (1078). Urbano II aproveitou o concílio de Clermont, em novembro de 1095, para convocar uma cruzada com o objetivo de recuperar dos turcos os lugares santos.
A primeira cruzada (1096-1099)
Os senhores feudais que atenderam à chamada do papa tinham reunido um poderoso exército composto de cavaleiros franceses, flamengos e alemães, comandados pelo duque da Baixa Lorena, Godofredo de Bouillon; assim como normandos provenientes do sul da Itália, dirigidos por Bohemundo de Tarento; cavaleiros do sul da França, sob o comando de Raimundo IV de Toulouse, e barões normandos e ingleses dirigidos por Roberto de Normandia.
As conquistas de Edessa e Antioquia
Após derrotarem os turcos em Dorileia (1097), as forças cruzadas dividiram-se em dois grupos à altura de Heracleia. Uma parte dos cavaleiros, comandada por Balduíno, irmão de Godofredo de Bouillon, e por Tancredo, sobrinho de Bohemundo de Tarento, dirigiu-se para o leste, ocupando a cidade de Edessa, onde foi fundado o primeiro Estado latino no Médio Oriente: o condado de Edessa, sob a soberania de Balduíno.
A maior parte do exército chegou a Antioquia, a primeira grande cidade onde aportaram os cruzados, conhecidos pelos muçulmanos como ifrany (francos). O cerco prolongou-se durante todo o inverno de 1098. Bohemundo de Tarento, que tinha liderado os cruzados durante a campanha, recebeu a cidade e as terras vizinhas, com o que formou o principado de Antioquia.
A conquista de Jerusalém
No verão do 1099, os cruzados chegaram aos muros de Jerusalém. Os habitantes da cidade, muçulmanos, judeus e cristãos ortodoxos, foram massacrados pelos cruzados. Godofredo de Bouillon recebeu o título de defensor do Santo Sepulcro e organizou a defesa de Jerusalém para os previsíveis ataques muçulmanos.
Miniatura do manuscrito Descriptio Terrae Sanctae, de Burcadus Theutonicus, do assédio a Jerusalém pelos cruzados (Biblioteca do Seminário de Pádua, Itália).
A criação das ordens militares
Para proteger os peregrinos que viajavam até Jerusalém, foram criadas as ordens militares do Hospital de São João de Jerusalém (cavaleiros hospitalares), por iniciativa dos mercadores da cidade italiana de Amalfi, e de Templo (cavaleiros templários). Estas ordens eram formadas por cavaleiros totalmente dedicados à guerra, soldados e monges ao mesmo tempo, dado que, juntamente com as atividades guerreiras, eram obrigados a receber os votos monásticos. Conforme as ordens militares aumentavam, templários e hospitalares foram se transformando no principal elemento da presença política e econômica da Europa na Terra Santa.
A reconquista muçulmana e a segunda cruzada (1147-1149)
A vitória dos cruzados devia-se, em grande parte, à desagregação das forças muçulmanas e ao apoio das comunidades cristãs da Síria e da Palestina, que os receberam como libertadores. Esta situação mudou substancialmente quando o atabeg Imad ad-Din Zenji, senhor de Mosul e de Alepo, conseguiu reunir um grande exército, com o qual acabou por conquistar Edessa (1144).
Perante a ameaça que a ofensiva muçulmana representava para os territórios de Antioquia, Trípoli e Jerusalém, o papa Eugênio III encarregou o abade Bernardo de Claraval da formação de uma nova cruzada (1146) destinada a socorrer os cristãos da Terra Santa. Nesta ocasião, ao chamado do papa acudiram o imperador Conrado III e o rei Luís VII da França. Os dois exércitos concentraram-se em Bizâncio, onde novamente se revelaram as diferenças entre os cruzados e os bizantinos por causa da pretensão do imperador de Bizâncio de submeter à sua autoridade todas as terras conquistadas.
Em 1147, os cruzados voltavam a penetrar na Ásia Menor e, seguindo a rota da costa, chegaram a Jerusalém. Não obstante, a cruzada fracassou ao pretender acabar com o domínio muçulmano na Síria.
Nur al-Din e Saladino
O abandono cristão coincidiu com o aparecimento de dois vigorosos caudilhos muçulmanos, cuja atuação decisiva levou à reconquista da maior parte da Palestina: Nur al-Din e Salah al-Din, mais conhecido como Saladino. Nur al-Din unificou a Síria ao mesmo tempo que proclamava a jihad, ou guerra santa, contra os cristãos. Saladino, de origem curda, foi enviado por Nur al-Din ao Egito com o objetivo de reorganizar o exército e a frota para completar o cerco sobre o reino de Jerusalém.
Em meados de 1187, estourou a guerra entre francos e muçulmanos. O confronto acabou com a vitória de Saladino, que derrotou o exército cristão em Hattin, em julho daquele mesmo ano. A frágil situação dos cristãos manifestou-se perante o fulminante avanço de Saladino: em outubro, Jerusalém e praticamente a totalidade da Palestina cediam ao poder muçulmano. Os francos apenas puderam conservar as cidades de Tiro, Trípoli e Antioquia.
A terceira cruzada (1188-1192)
Na Europa, a perda de Jerusalém causou uma profunda comoção. O papa Gregório VII pediu a formação de uma nova cruzada, à qual se uniram os principais soberanos europeus: o imperador alemão Frederico I e os reis Filipe II Augusto da França e Ricardo I da Inglaterra.
O primeiro objetivo de Ricardo I e Filipe II foi o de assegurar o controle de São João do Acre, a principal cabeça de ponte com que contavam as forças cruzadas, mas, apesar da rendição da praça, o soberano francês decidiu voltar ao seu país. Por sua vez, Ricardo I derrotou Saladino nas batalhas de Arsuf e Jaffa. Não obstante, não conseguiu recuperar Jerusalém nem o interior da Palestina e teve de conformar-se com o controle do litoral.
Finalmente, foi assinado um pacto entre Saladino e Ricardo I segundo o qual os muçulmanos continuariam a dominar Jerusalém, mas comprometiam-se a permitir o livre trânsito dos peregrinos aos lugares santos.
Esta cruzada também não conseguiu recuperar o controle da Terra Santa.
Cristãos contra cristãos na quarta cruzada (1202-1204)
Apesar dos fracassos, o papa Inocêncio III promoveu uma nova cruzada em 1202, com o fim de socorrer os cristãos da Terra Santa e acabar com a supremacia do Islã, conquistando o Egito. Foram os barões franceses, alemães e do norte da Itália que acudiram à chamada.
Instigados por Veneza, ao chegar à capital do Império Bizantino, os cruzados participaram de uma das múltiplas disputas palacianas pelo trono. Expulsos da cidade, os cruzados reagruparam-se e iniciaram o seu cerco. Os motivos iniciais da cruzada tinham sido abandonados, e a conquista e o saque das riquezas de Bizâncio eram agora o objetivo dos cruzados. Donos e senhores da capital, nomearam imperador o conde Balduíno IX de Flandres, que fundou o Império Latino do Oriente, onde reinou como Balduíno I. Durante os cinquenta anos do Império, os cruzados mantiveram constantes lutas contra os gregos, que conseguiram manter um Estado em Nicéia (Ásia Menor), contra os búlgaros da Macedônia e contra a crescente pressão dos turcos, a leste.
A quinta cruzada e o esquecimento da Terra Santa (1217-1220)
O papa Inocêncio III organizou uma nova cruzada em 1215. Pela primeira e única vez, uma cruzada seria dirigida e financiada pelo papado. O rei André II da Hungria e numerosos cavaleiros alemães deviam dirigir-se à Palestina para socorrer o rei de Jerusalém e imperador latino do Oriente, João I de Brienne, na reconquista da Terra Santa. No entanto, o sultão egípcio Al-Kamil derrotou os cruzados no Cairo e obrigou-os, no fim de 1219 a abandonar o Egito.
A sexta cruzada (1228-1229)
Uma personagem singular, o imperador alemão Frederico II, encabeçou a sexta cruzada. Com o objetivo de conquistar a Terra Santa, sobre cujos territórios tinha direitos pelo seu matrimônio com a princesa de Jerusalém, Iolanda de Brienne, o imperador reuniu na Itália um poderoso exército e dirigiu-se à Palestina. Em 1227, o imperador desembarcou em São João do Acre, mas, em vez de atacar os muçulmanos, iniciou com eles longas negociações que demoraram dois anos. Frederico II conseguiu a entrega de Jerusalém em troca do compromisso de permitir a permanência da população muçulmana, livre para realizar o seu culto, pondo fim, deste modo, à política agressiva do Ocidente cristão contra o Islã.
Não obstante, os pactos não foram aceitos pelo papa, inimigo declarado do imperador (o qual tinha excomungado), nem pelas ordens militares, que entendiam a tolerância de Frederico II como um sinal de fraqueza. A luta entre o papado e o império, que se desenvolvia na Itália, tinha agora uma nova frente na Palestina. Perante a ameaça contra os seus domínios italianos, Frederico II viu-se obrigado a abandonar Jerusalém e a voltar para a Itália.
O cruzado perfeito: Luís IX, rei da França
Tal como tinha acontecido em 1187, a perda de Jerusalém causou uma profunda comoção na Europa. Perante este fato, o rei Luís IX da França, posteriormente canonizado pela Igreja como São Luis, organizou uma nova cruzada destinada, mais uma vez, a resgatar a Terra Santa. Os mamelucos egípcios conseguiram deter a frente francesa na cidade de Al-Mansur e, por fim, obrigaram os cruzados a render-se (1250), incluindo o próprio Luís IX, que teve de pagar um alto resgate pela sua libertação.
O rei francês, que voltava derrotado aos seus Estados, não renunciou ao seu ideal de cavaleiro cruzado e, vinte anos depois de sair do Egito, preparou uma nova expedição para conquistar a Palestina. Nesta ocasião, o primeiro objetivo foi a costa da Tunísia. A expedição desembarcou sem problemas em Cartago (1270), mas pouco depois eclodiu uma epidemia de peste que dizimou os cruzados. O rei pereceu, vitimado pela epidemia, e seu irmão e sucessor, Carlos de Anjou, assinou a paz com o emir da Tunísia e regressou à França.
O fim da presença cristã na Terra Santa
Sem poderem receber reforços da Europa, os cristãos orientais praticamente não opunham resistência aos mamelucos egípcios. Com a derrota dos mongóis pelo sultão mameluco Qutuz terminaram as esperanças dos cruzados na Palestina. Livre do perigo mongol, o general Baybars, que assassinara Qutuz e assumira o trono, empreendeu a ofensiva final. Em 14 de maio de 1268, as forças de Baybars entraram na Antioquia, a mais importante das cidades francas, que tinha resistido durante 170 anos aos ataques muçulmanos. A cidade foi totalmente arrasada e a sua população massacrada ou escravizada. A densa rede de fortalezas que defendia os territórios cristãos foi desmantelada: a ocupação da inexpugnável fortaleza O Krak dos Cavaleiros – ou Castelo dos Cavaleiros – (1271) reduzia a presença dos cruzados a umas poucas praças costeiras. Não obstante, os cristãos do Acre e Tiro conseguiram pactuar uma trégua com Baybars, que já não os via como inimigos.
O novo sultão mameluco, Qalaun, continuou a política do seu predecessor, manteve a trégua, mas lançou-se contra as praças cristãs que tinham ficado fora dos pactos.

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